No domingo de seu triunfo, um Flávio Bolsonaro babando soberba arrotou: "Acabou a era do PT ". Como os institutos de pesquisa não tinham captado os humores dos votantes, a imprevista derrota de Lula fez com que o ânimo dos democratas escorresse para o ralo. Atarantada, a direção da campanha bateu cabeça durante dias.
Na base da sociedade, a atitude foi bem outra. Pipocaram manifestações espontâneas que, em questão de horas, reverteram o baixo astral. Reuniões viraram assembleias e geraram panfletagens e passeatas. A vontade de vencer ganhou propulsão, tornou-se nacional.
Santos (SP) é um exemplo. Na noite do dia 6, uma terça-feira, o Sindicato dos Petroleiros promoveu um debate sobre o que fazer no segundo turno. Esperava-se que aparecessem umas 50 pessoas. Mas 200 se materializaram e, dali a pouco, 500. O auditório do sindicato lotou e todos saíram para a avenida Conselheiro Nébias.
A assembleia ao ar livre foi engrossada por estudantes da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo, e por uma marcha vinda do Sindicato dos Rodoviários. "Quando me dei conta, havia 3.000 pessoas na rua", conta Kris Mackleiny, trabalhadora da Petrobras que improvisou um discurso carbonário. O que ninguém esperava aconteceu.
Na mesma terça-feira, a União Nacional dos Estudantes, a velha UNE, fez uma reunião na sua sede, no Rio de Janeiro. Uma multidão foi lá e decidiu realizar ações pró-Lula em todo o país. Conclamar atos públicos é moleza; organizá-los e realizá-los, uma África. Contudo, em quatro dias houve centenas de manifestações estudantis em todo o Brasil.
O surrado clichê do rastilho de pólvora tornou- se realidade porque, com a generalização das universidades federais e escolas técnicas nas últimas décadas, os estudantes se espalharam pelo interior. Antes concentrados nas capitais, estão presentes em inúmeras cidades médias.