Ele conta que convive de forma pacífica com a doença. Resume essa postura com um verso do poeta Paulo Leminski : "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino".
Para o guitarrista dos Titãs , a consciência de que vamos morrer acompanha todo ser humano a vida inteira. A doença apenas a tornou mais concreta e, em vez de paralisá-lo, o fez viver com mais intensidade. "Cada dia que eu acordo é mais especial do que era antes do diagnóstico", diz ele em entrevista à Folha , por mensagens de áudio.
Na próxima sexta-feira (6), Bellotto dará uma aula magna a 4.000 médicos sobre vida, ciência, arte e a dimensão humana do cuidado durante o Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, promovido pela Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica) de quinta (5) a sábado (7), no Rio de Janeiro.
"Os bons médicos te deixam com a esperança. Ou, se for preciso dizer que não há esperança, ainda assim há uma esperança. Porque até o momento de morrer você vai viver."
Segundo ele, a música tem funcionado como remédio. "Enquanto estou tocando, a doença não existe." A quem acaba de receber um diagnóstico de câncer, aconselha calma e pragmatismo. "É preciso eliminar o drama. Se você cai no abismo do drama, não sai mais dele. Vamos ver o que a ciência tem a oferecer."
O que mais atrapalha o paciente, afirma, é o estigma . Como escritor, nota que, quando um autor quer condenar um personagem, costuma dar a ele um câncer , muitas vezes de pâncreas. Bellotto diz esperar que a doença perca o peso que tem, assim como aconteceu com a tuberculose quando a condição se tornou tratável. Quando o abordam na rua com olhar preocupado, responde: "Estou igual a você, estou vivo".
Você costuma dizer que não luta contra o câncer, que negocia uma convivência pacífica com ele. Como se convive em paz com algo que pode tirar sua vida? A ideia de que você vai morrer acompanha todo ser humano a vida inteira. A gente consegue, de uma maneira que não consigo entender, deixar de lado essa consciência, que senão talvez impossibilitasse a vida. Imagine acordar todo dia pensando: "Vou morrer, todas as pessoas de quem eu gosto vão morrer".
O ser humano, na sua estrutura psicológica moldada pela evolução, consegue viver sabendo que a morte pode chegar a qualquer momento. Para mim é igual, sempre foi. Talvez a ideia da morte esteja mais concreta. Mas essa concretude acaba motivando um fruir da vida mais intenso. Cada dia que eu acordo é mais especial do que era antes do diagnóstico. Penso: "Puxa, estou bem, não estou sentindo nenhuma dor. Que maravilha esse céu azul, essa brisa". O que a gente tem é isso.
Você tem medo da morte? Esse medo mudou depois do diagnóstico? Não tenho medo da morte e já não tinha antes do diagnóstico. Claro que tenho certa angústia de pensar no momento da morte. Você não sabe o quanto vai sofrer, e a medicina é muito eficiente em eliminar as dores, em anestesiar os sintomas mais difíceis desse momento. Mas da morte como conceito nunca tive medo.
É claro que não gostaria de morrer, prefiro continuar vivendo, como todo mundo. E o que às vezes preocupa, no meu caso, não é a minha morte, é o que ela pode causar às pessoas que gostam de mim, que convivem comigo. Você quer que quem você ama não sofra. E a melhor maneira é mostrar que está bem e pronto para encarar. Sempre repito uma frase do poeta paranaense Paulo Leminski : "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino".
Que reflexão você sugere a alguém que acabou de receber o diagnóstico e está paralisado pelo medo? Muita gente me procura, e a primeira reação é de desespero, de medo de morrer. Eu digo: primeiro, calma. Vamos respirar e ver qual é o problema. Um certo pragmatismo. É preciso eliminar o drama. Se você cai no abismo do drama, não sai mais dele. Vamos ver o que a ciência tem a oferecer.
No câncer de pâncreas tem havido muitos progressos, como o daraxonrasib, aprovado pela FDA [agência reguladora dos Estados Unidos] e que aguarda a [liberação da] Anvisa. São remédios que mostram que os pesquisadores estão chegando mais ao âmago do câncer de pâncreas.
É preciso coragem, a mesma que faz a gente sair da cama e encarar cada dia. Vamos pensar nas coisas essenciais, o que a gente devia fazer mesmo sem diagnóstico nenhum. Acho que o diagnóstico ajuda nessa percepção da essência da vida, das coisas que importam.
Você está usando o daraxonrasib? O que pensa sobre a desigualdade no tratamento do câncer no Brasil? Não estou usando o remédio, não, mas é urgente que ele seja logo aprovado pela Anvisa e que possa ser acessível para todo mundo. Os preços por enquanto são proibitivos e é inaceitável que um remédio tão importante e revolucionário seja inacessível para a maior parte da população.
O que a sociedade ainda precisa mudar na forma como acolhe pessoas com câncer? O que mais atrapalha é o estigma. O câncer assusta. Quando um escritor precisa dar um destino desagradável a um personagem, bota um câncer, nem pensa muito.
A forma de destigmatizar é tratar disso sem drama e mostrar que se leva uma vida normal. As pessoas me encontram na rua com aquele olhar: "E aí, você está bem?". Eu falo: "Estou igual a você, estou vivo". É uma doença como as outras, que tem tratamento, em grande parte dos casos tem cura e, quando não tem, há tratamento que permite uma vida normal. A tuberculose foi estigmatizada no século 19 e foi perdendo o estigma quando se tornou tratável. Espero que aconteça o mesmo com o câncer.
Como a equipe médica pode ajudar o paciente a não perder a própria identidade num tratamento longo? Quando você recebe o diagnóstico de uma doença grave, deixa de ser aquilo que é e passa a ser um ser humano em essência, naquele medo mais básico, o de morrer. O que os médicos podem fazer, e geralmente fazem, é acolher, mostrar que eles e a ciência estão ali para dar o melhor a esse indivíduo que agora se debate com a finitude . Foi assim comigo.
Os bons médicos te deixam com a esperança. Ou, se for preciso dizer que não há esperança, ainda assim há uma esperança. Porque até o momento de morrer você vai viver. A atenção que se dá hoje aos cuidados paliativos , ou mesmo as discussões sobre morte assistida , faz parte desse esforço da medicina para dizer: não fique desesperado, temos aqui algo que vai te ajudar, um tratamento que vai te curar ou algo que vai, no mínimo, facilitar a sua morte.
Você falará para uma plateia que lida com dados, protocolos e metas de sobrevida. Qual "ferramenta artística" os médicos deveriam adotar? Não me sinto em condições de dar conselho aos médicos, sou eu que aprendo com eles. Mas a ferramenta essencial de qualquer artista é a imaginação. O Einstein dizia que a gente só consegue responder às perguntas que a gente mesmo faz. É ousar fazer uma pergunta que seja surpreendente para você mesmo. E aí, claro, a arte responde de um jeito, a ciência, de outro.
Em algum momento a ciência falhou em te dar respostas e a arte preencheu esse vazio? Ciência e arte atuam em espaços diferentes. No meu caso, em nenhum momento a ciência me deixou num vazio. Nunca pensei: estou caindo sozinho no abismo. A arte tem uma função complementar, terapêutica. Sempre que subo no palco, naquela uma hora e meia, duas horas de show, o medo, qualquer coisa sobre a doença desaparece. A música é um remédio.
Quando não há mais nada a fazer no tratamento, a arte tem uma função muito grande de preencher o vazio, seja pela música, pelo cinema, pelo teatro ou pela literatura. Ou pela filosofia , que não é arte, mas também ajuda muito. Percebo também nos outros doentes uma necessidade de se apoiar na filosofia. Um manda para o outro frases de Marco Aurélio [imperador romano], de Nietzsche [filósofo alemão].
Você já disse que a arte tem a capacidade de "reinventar a vida". O que você reinventou na sua nos últimos dois anos? Existe alguma música que tenha ganhado outro significado para você? Não, não tem nada que tenha mudado de sentido para mim. É claro que o jeito que você olha a vida depois do diagnóstico é diferente, mas não estou tão diferente do que era. Talvez tenha uma tensão maior ao fato de como a própria doença aparece às vezes.
Por exemplo, eu tenho lido vários romances em que quando o autor quer dizer que um personagem está ferrado, que ele vai morrer, geralmente ele tem câncer de pâncreas. Então era uma coisa que eu não reparava antes, mas reparei ultimamente. Como autor, eu entendo isso, você pensa assim: "Puxa, esse personagem tem que ter uma doença grave, vai morrer, vai sofrer. Deixa eu ver que câncer eu vou dar para ele." O de pâncreas é sempre bem cotado nessas horas.
'Cada dia em que acordo é mais especial do que antes do diagnóstico do câncer', diz Tony Bellotto
O músico e escritor Tony Bellotto , 66, diz não ter medo da morte, nem antes nem depois de receber o diagnóstico de câncer de pâncreas, em março de 2025 . O que o angustia é outra coisa, ele diz: o sofrimento que pode vir no fim e a dor que sua morte causaria