01/11/2026 04h30 Atualizado 01/11/2026 04h30
De astros da música a atores, diretores e atletas, a relação entre fãs e ídolos costuma ser marcada por admiração, identificação e vínculo emocional. Entretanto, quando uma celebridade se envolve em polêmicas, assume posições controversas ou adota comportamentos que entram em conflito com a imagem construída ao longo dos anos, esse vínculo pode ser abalado.
Nos últimos meses, diferentes controvérsias envolvendo famosos vieram à tona. Integrantes do grupo sul-coreano BTS foram muito criticados ao postarem fotos com Chris Brown, que tem histórico de violência doméstica. A passagem da banda pelo Brasil nos últimos dias também deixou decepcionados ao simplificar a estrutura do palco brasileiro. Já o cantor britânico Ed Sheeran foi atacado após afastar da sua turnê um rapper que fez um discurso pró-Palestina.
Os casos reacenderam discussões sobre lealdade, valores e decepção. Embora muitos enxerguem essas reações como exageradas, especialistas afirmam que sentimentos como tristeza, raiva, frustração e até sensação de traição são comuns nesses casos. Em alguns admiradores, a experiência pode até se assemelhar a um processo de luto.
Para Adriana Amaral, professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do CNPq sobre culturas de fãs há mais de duas décadas, a decepção é parte da própria experiência de ser fã.
— Sempre existe uma espécie de pêndulo entre admiração e decepção. Ser fã é viver entre essas duas coisas — afirma. — Hoje o tema está mais em evidência porque muitas dessas decepções estão relacionadas a posicionamentos de artistas, acusações, comportamentos controversos ou descobertas que desagradam os admiradores.
Adriana destaca que a experiência de ser fã é individual e coletiva ao mesmo tempo. Enquanto a obra conversa com a trajetória de cada um, quando o fã encontra outras pessoas que partilham do mesmo interesse, cria-se uma forma de pertencimento, sociabilidade e construção de identidade coletiva.
O psiquiatra Luiz Dieckmann, diretor médico da TribleMD, explica que a conexão entre o fã e o ídolo é um vínculo parassocial:
— Essa relação é unilateral em termos de convivência, porque o ídolo não conhece pessoalmente aquele fã, mas o afeto sentido pode ser absolutamente verdadeiro. Quando alguém acompanha um artista durante muitos anos, suas músicas, filmes, livros ou falas acabam participando de momentos importantes da vida daquela pessoa. O ídolo pode representar companhia, inspiração, pertencimento e até uma versão de quem o fã gostaria de ser.
Segundo ele, os ídolos passam a ocupar um espaço relevante na biografia emocional de seus fãs, mesmo sem saber a intensidade dessa relação.
Entretanto, a mesma identificação que aproxima também pode gerar sofrimento quando um artista se envolve em uma controvérsia. Nessa situação, o choque costuma ser intenso e doloroso, e a forma como esse sentimento afeta a vida do fã deve ser observada com atenção.
— Quando admiramos alguém, criamos expectativas sobre essa pessoa. Se ela faz algo muito diferente da imagem que construímos, podemos sentir raiva, tristeza, frustração e até vergonha. O sentimento em si não é um problema. O que precisa ser observado é sua intensidade, duração e o impacto na vida do fã — afirma Dieckmann.
De acordo com Adriana, a própria lógica da celebridade contribui para esse processo.
— O que as pessoas conhecem é uma performance construída. Não conhecemos a pessoa em si, conhecemos aquilo que o ídolo quer nos mostrar, o que aparece nas entrevistas, nos filmes, nas músicas ou nas redes sociais. Então, qualquer coisa que saia daquele roteiro que o fã criou pode gerar decepção.
Para o psiquiatra, muitas vezes a frustração é intensa porque o vínculo não é construído apenas em torno da obra.
— O fã passa a associar o ídolo a valores, ideias e características com as quais se identifica. Quando o artista faz algo contrário a essa imagem, pode surgir uma sensação de quebra de um contrato emocional — explica Dieckmann.
Em alguns casos, essa ruptura também afeta a forma como a pessoa enxerga a si mesma pois quando o ídolo já faz parte da identidade do fã, a frustração pode ser vivida como um questionamento das próprias escolhas e valores.
A estudante de psicologia Bruna Lobato, de 28 anos, conhece bem essa experiência entre os dois sentimentos. Na adolescência, acompanhava intensamente a banda britânica One Direction quando recebeu a notícia de que Zayn Malik deixaria o grupo, em 2015.
— Chorei muito. Naquela época, os artistas que eu consumia eram uma válvula de escape. Eu escrevia fanfics [histórias de romance escritas por fãs], criava outras realidades e eles eram parte importante disso. Quando o Zayn saiu da banda, mexeu com essa fantasia e trouxe as coisas para o real — lembra.
Hoje, Bruna acredita que o episódio gerou um impacto em sua saúde emocional.
— Eu não tinha muita noção do que era ansiedade naquela época, mas acredito que aquilo engatilhou muitas coisas. Ficava pensando o tempo todo no que ia acontecer. Atrelava muito o meu bem-estar ao fato de as coisas continuarem como eram — conta.
Anos mais tarde, Bruna experimentou sensação semelhante ao acompanhar a morte da estudante Ana Benevides em um show da Taylor Swift no Rio, em 2023, durante a Eras Tour. A postura da cantora americana foi contrária ao que a fã esperava.
— Foi um tapa na cara. A Taylor era a única artista com quem eu ainda sustentava uma relação parassocial muito forte — avalia.
Luizy Alves dos Reis, de 27 anos, também viu a imagem de um artista que admirava ruir ao longo dos anos. Fã de Ashton Kutcher desde a adolescência, a estudante de educação social conta que a decepção começou quando vieram à tona informações sobre o apoio do ator ao colega Danny Masterson, posteriormente condenado por estupro nos Estados Unidos.
— Eu estava assistindo à série The Ranch quando saiu toda a história. Fiquei sem chão e com nojo dele. O Ashton saiu em defesa do Danny porque eles eram amigos fora das telas também, e aquilo me decepcionou muito — relembra.
Ao buscar mais informações sobre a trajetória do ator, Luizy afirma que passou a revisitar conteúdos antigos sob uma nova perspectiva. E mesmo depois de alguns anos, a decepção continua presente.
Para Dieckmann, os relatos ilustram como o sofrimento nem sempre está relacionado à perda da obra produzida pelo artista e sim a imagem que existia daquele pela, o que significava que ela tinha e a história que o fã acreditava conhecer.
Quando a decepção se parece com luto
Embora a relação entre fã e ídolo não seja algo físico e direto, ela pode ativar mecanismos emocionais semelhantes aos observados em relações com pessoas próximas e presentes em nossa rotina. É por isso que muitos admiradores descrevem essas experiências como uma sensação de traição.
— O cérebro reage à quebra de expectativa, à perda de confiança e à sensação de ruptura mesmo quando não existia convivência direta. O cérebro não exige proximidade física para que um afeto seja legítimo — explica Dieckmann.
Segundo o psiquiatra, em algumas situações, o processo pode lembrar um luto.
— Existe uma perda real, embora não seja necessariamente a perda da pessoa. Muitas vezes, o que se perde é a imagem que existia dela, o significado que ela tinha e a história que o fã acreditava conhecer. — afirma — Isso tudo provoca uma negação, raiva, tristeza, tentativas de justificar o ocorrido e necessidade de reorganizar esse vínculo. É bem semelhante ao processo de luto, mas sem equiparar a morte de alguém.
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Por que alguns fãs continuam defendendo seus ídolos?
Se parte dos admiradores se afasta após uma polêmica, outros seguem ao lado de seus ídolos mesmo diante de acusações graves ou comportamentos controversos. Para Adriana, a resposta envolve fatores emocionais, sociais e econômicos.
— Ser fã também é um investimento afetivo, emocional, cultural e econômico. As pessoas investem tempo, dinheiro e constroem relações sociais dentro daquele universo. Quando surge uma polêmica, cada uma vai lidar com isso de uma forma diferente — explica. — Há pessoas que não conseguem continuar consumindo aquele conteúdo porque determinadas questões são incompatíveis com seus valores. Outras conseguem separar a obra do artista. Isso depende das experiências, das causas com as quais cada um se identifica e da importância daquele artista em sua trajetória.
Quando a admiração deixa de ser saudável
Apesar das possíveis frustrações, os especialistas ressaltam que ser fã está longe de ser algo negativo. Pelo contrário.
— Quando é saudável, ser fã pode fazer muito bem para o emocional. Uma música, um livro, um filme ou mesmo a trajetória de alguém pode trazer conforto, inspiração, esperança e ajudar a pessoa a atravessar momentos difíceis — afirma Dieckmann.
O alerta surge quando a admiração passa a comandar a vida da pessoa.
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Entre os sinais de alerta estão gastos excessivos, abandono de relacionamentos ou responsabilidades, perda completa do senso crítico, invasão da privacidade do artista e sofrimento desproporcional diante de críticas ou polêmicas.
— Admirar é saudável. Anular a própria vida em função daquela pessoa, não.
Diante de uma decepção, a orientação é reconhecer os sentimentos sem ridicularizá-los, reduzir a exposição ao assunto nas redes sociais e buscar apoio em vínculos reais.
— Nem sempre precisamos transformar alguém em perfeito ou completamente horrível. É possível admirar algumas partes, rejeitar outras e até se afastar por um tempo para reorganizar esse vínculo. O importante é lembrar que nenhum ídolo deve ocupar um espaço maior do que a própria vida — conclui o psiquiatra.
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Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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