O brasilianista Leslie Bethell já não se lembra se foi ele quem ligou para o também historiador Eric Hobsbawm, ou se foi o contrário.
Em outubro de 2002, quando o candidato do PT , Luiz Inácio Lula da Silva, afinal se elegeu presidente do Brasil depois de três sucessivas derrotas, Bethell e Hobsbawm moravam em Oxford, na Inglaterra. De lá, do outro lado do Atlântico, acompanhavam atentos as chances do petista. Foi a notícia da apuração de votos, e a perspectiva de vitória da esquerda, que motivou o telefonema.
Bethell, um dos principais pesquisadores em língua inglesa da história do Brasil, e Hobsbawm, um dos mais importantes historiadores do século 20 , eram amigos desde os anos 1960. Filho da classe operária do norte da Inglaterra, Bethell militou, quando jovem, no Partido Trabalhista. Hobsbawm fazia parte, então, do grupo de historiadores marxistas que buscava renovar a historiografia britânica.
Origem social e afinidade ideológica ajudam a explicar por que, em 2002, os dois não apenas tivessem simpatia por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores, mas torcessem abertamente por sua vitória.
"Nós nos falamos pelo telefone, assistindo à apuração", contou Bethell, recentemente. "Estávamos entusiasmados." A alegria era tanta que alguém propôs abrir um champanhe. "O Eric disse: ‘Vamos, venha aqui para casa’. Então peguei o carro e fui."
Segundo Bethell, ele e seu amigo comunista abriram não uma, mas duas garrafas de espumante, celebrando a tão esperada —e adiada— chegada de Lula ao Planalto. "Uma vitória para a esquerda! Uma vitória para o socialismo!", repetiam, ao fazer os brindes.
Foi então, lembrou Bethell, que o autor de "Era dos Extremos" , aumentando a dose de autoironia que já temperava a festa, fez uma observação compatível com as décadas de conhecimento histórico acumulado entre os dois.
Adivinhando o que vinha pela frente, Hobsbawm olhou para o amigo e disse: "Agora, só nos resta esperar pela decepção".
Leslie Bethell fará 90 anos em fevereiro de 2027. Há quase cinco décadas, seu nome é automaticamente associado à história do Brasil, no mundo de língua inglesa. Em boa medida, o modo como pesquisadores, professores e estudantes norte-americanos e europeus compreendem o Brasil é, ainda hoje, impactado por decisões editoriais e institucionais tomadas por ele.
Nos anos 1970, quando começava na carreira acadêmica, Bethell foi convidado a organizar a prestigiosa coleção de História da América Latina de Cambridge , na qual fez questão de enxertar mais capítulos sobre o Brasil do que muita gente do mundo "hispanohablante" considerava razoável.
Enquanto ainda editava os livros derradeiros da coleção, entre as décadas de 1990 e 2000 —o último dos 12 volumes foi publicado em 2008—, Bethell criou e dirigiu, na Universidade de Oxford, o Centro de Estudos Brasileiros . Pela instituição, um instrumento de soft power e de projeção do Brasil na elite acadêmica mundial, passaram dezenas de intelectuais brasileiros.
Brasilianista progressista, amigo de Hobsbawm, lembra como perdeu apoio do PT
[RESUMO] O britânico Leslie Bethell, um dos mais importantes pesquisadores da história do Brasil, completa 90 anos em fevereiro. Morador do Rio há quase duas décadas, ele relembra sua origem operária, a formação intelectual e os vínculos com o Brasil, onde viv