Mesmo com a concorrência de aplicações de renda fixa que podem oferecer retornos maiores, a poupança concentrava R$ 952,9 bilhões em recursos de investidores do varejo tradicional e do varejo alta renda em agosto de 2026, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
A permanência desses recursos na poupança está relacionada a fatores que envolvem tradição, familiaridade e percepção de segurança.
"O brasileiro tem um apego emocional à poupança. Ela faz parte da tradição financeira e transmite uma sensação de segurança, simplicidade e facilidade de acesso ao dinheiro", afirma Adriana Vieira, planejadora financeira pela Planejar.
Juliana Daitx, coordenadora de investimentos da Unicred Porto Alegre, diz que a decisão de manter dinheiro na caderneta tem mais relação com o comportamento do que com a matemática.
"A poupança ainda é a principal referência e o primeiro investimento da maioria dos brasileiros e, querendo ou não, se torna um investimento tradicional", diz.
Segundo Daitx, a liquidez, a isenção de Imposto de Renda e a ausência de decisões sobre prazo, indexador ou emissor também contribuem para que os recursos permaneçam na aplicação por anos.
Em um cenário de juros elevados, porém, deixar o dinheiro na poupança pode representar um maior custo de oportunidade. Quando a taxa Selic está acima de 8,5% ao ano, a caderneta rende 0,5% ao mês mais a TR (Taxa Referencial), enquanto aplicações como CDBs e títulos públicos pós-fixados podem acompanhar mais diretamente os juros do mercado .
"Com juros elevados, o custo de oportunidade de manter recursos na poupança aumenta", afirma Adriana. Segundo ela, aplicações conservadoras podem oferecer retornos superiores mesmo depois de descontado o Imposto de Renda, embora a comparação deva considerar também a liquidez e os riscos de cada alternativa.
A poupança é isenta de IR para pessoas físicas, enquanto CDBs e outros investimentos tributáveis têm cobrança sobre os rendimentos.
Em setembro, os saques na caderneta de poupança superaram os depósitos em R$ 9,35 bilhões, segundo dados divulgados pelo BC (Banco Central). No mês, os clientes depositaram cerca de R$ 339 bilhões e retiraram aproximadamente R$ 348 bilhões. O rendimento de R$ 6,5 bilhões da aplicação no período compensou parte da saída de recursos.
O movimento pode refletir tanto a busca dos investidores por aplicações mais rentáveis, em um cenário de juros elevados, quanto a necessidade de recorrer às economias para pagar despesas e quitar dívidas, diante da pressão sobre o orçamento das famílias .
A compra de imóveis também pode explicar parte dos saques. Segundo as especialistas, a facilidade de acesso a alternativas de renda fixa pelo celular contribui para a migração de recursos, mas não é possível atribuir todas as retiradas a uma troca de investimento.
"Há dois movimentos. O primeiro é a migração: juros reais elevados e a facilidade de investir pelo celular levaram parte dos poupadores para CDBs com liquidez diária , títulos isentos e Tesouro Direto . O segundo é o uso da reserva: com o orçamento das famílias pressionado e o endividamento alto, muita gente recorre à poupança para pagar contas e dívidas", afirma Juliana.
A caderneta ainda pode ser útil para manter pequenas quantias destinadas a pagamentos e despesas próximas, quando a facilidade de movimentação é prioridade.
Adriana, planejadora financeira, afirma que a aplicação pode fazer sentido para recursos que serão usados em gastos pontuais, mas recomenda diferenciar esse dinheiro da reserva de emergência . Para essa finalidade, há alternativas conservadoras que podem combinar liquidez e rentabilidade maior.
Antes de trocar de aplicação, o investidor deve observar as condições de resgate e os riscos envolvidos. CDBs, por exemplo, têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) dentro dos limites previstos. Fundos de investimento não contam com essa garantia e podem ter prazos de resgate diferentes. Já os títulos públicos têm risco associado ao governo federal.
A escolha depende, portanto, da finalidade do dinheiro. Mais do que abandonar a poupança, especialistas recomendam avaliar se a aplicação continua adequada ao prazo, à necessidade de acesso aos recursos e aos objetivos de cada poupador.