Brasil tem que afastar gargalos para não perder liderança em renováveis, diz presidente de aliança global

Para Ben Backwell, país olha hoje soluções antigas e não usa base industrial para ser líder no mercado mundial das energias

Por Admin ·

Brasil tem que afastar gargalos para não perder liderança em renováveis, diz presidente de aliança global

Às vésperas da COP31, na Turquia, ele admite que a meta global de triplicar as energias renováveis até 2030 não será atingida

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Brasília Às vésperas de embarcar para a COP31 (Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas), na Turquia , o presidente da Aliança Global pelas Energias Renováveis, Ben Backwell, alerta que o Brasil não está aproveitando as oportunidades de crescimento do mercado de energias renováveis. Hoje, o motor de expansão está na Ásia.

Segundo ele, o país voltou a olhar para soluções antigas, como o gás, e não está direcionando sua base industrial para ser líder no mercado mundial. Para o especialista, que também é CEO do Conselho Global de Energia Eólica, o Brasil precisa atacar gargalos com mais redes de transmissão e otimização das redes que já existem, com foco nas fontes renováveis.

"Agora que terminaram as eleições, uma questão é assegurar que o trabalho dos sistemas regulatórios, dos mecanismos de mercado, estejam aptos para o período que vem", diz ao C-Level entrevista, videocast da Folha .

À frente da aliança, chamada de GRA na sigla em inglês, Backwell chefia uma coalizão que reúne as principais associações globais do setor de energia limpa. Na entrevista, ele admite que a meta global de triplicar as energias renováveis até 2030 não será atingida, mas se mostra otimista com a tendência de aceleração.

A COP firmou há alguns anos uma meta global de triplicar as energias renováveis até 2030. O mundo já avançou o suficiente? O acordo na [COP] 28 foi histórico e colocou na mesa uma meta muito ambiciosa, que prevê a capacidade instalada de 13 TW (terawatts) em 2030. A gente não vai chegar a essa meta exatamente. Mas estamos numa tendência de aceleração e na curva correta para chegar. Vai ser um desafio muito grande.

Quais são os obstáculos? Não é uma questão de apetite, de demanda. São duas questões fundamentais. Uma é a capacidade de redes. Em qualquer lado do mundo estamos enfrentando falta de linhas de transmissão. E são desafios de infraestrutura que levam mais tempo do que deveriam ou estão com algum gargalo. Conectados com isso estão também gargalos burocráticos, que é o que chamam de permissão, licenciamento.

Um projeto, por exemplo, de eólica offshore, inclusive nos lugares onde estão avançando rápido, leva oito ou nove anos para [vencer] processos burocráticos. E, às vezes, dois anos para construir. Os processos, a capacidade burocrática, técnica dos governos, têm que melhorar também.

Q uando a meta poderia ser alcançada? Ou haverá alguma revisão desse objetivo? Os governos estão ainda firmes com esse objetivo e coletivamente procurando mecanismos para acelerar ainda mais. Acho que nos primeiros anos da década que vem a gente vai alcançar a meta, não estamos longe. Mas já estamos daqui a pouco em 2027, é uma quantidade de gigawatts fisicamente muito desafiadora para instalar nesse tempo relativamente curto.

O sr. falou em burocracia. Como melhorar esse canal? É um problema já há vários anos. É ter mais pessoal capacitado. A aplicação da tecnologia é promissora também. Não é somente um problema de construir linhas. Isso é importante, mas não é só isso. Também passa por otimizar as redes que a gente já tem. Por exemplo, você olha o desafio no Brasil com o curtailment [corte de energia por excesso de oferta]. A notícia positiva é que tem muitas novas tecnologias que estão começando a entrar no mercado que vão ajudar a otimizar o sistema.

Que tipos de tecnologias? O mais básico é a integração de baterias no sistema. Quase todos os projetos renováveis, em nossa opinião, vão ser com baterias de algum tipo daqui para frente, sobretudo projetos fotovoltaicos com bateria, eólicas com bateria, eólicas com projetos híbridos. A inteligência artificial vai poder automatizar bastante essa produção e geração para melhor atender à demanda nas horas certas. Mas é importante que a gente foque essa questão da otimização, e não tentar voltar para tecnologias antigas, criar muitas coisas redundantes que não são necessárias.

A saída dos Estados Unidos de acordos de mudanças climáticas em energias renováveis afetou o atingimento da meta? Difícil dizer. Uma das coisas que acho que as pessoas não estão entendendo bem é que esses anos foram bastante positivos para as renováveis nos Estados Unidos. Tem uma espécie de boom neste momento, sobretudo no Texas e outros lugares onde a gente está conseguindo projetos para fornecer a data centers.

Agora, não é um segredo que eles perseguiram políticas a nível federal para frear a eólica offshore. Mas, no geral, acho que o setor privado e a demanda asseguraram que os Estados Unidos seguissem crescendo em energias renováveis.

O resultado das eleições para o Congresso americano pode mudar alguma coisa? Esperamos que os Estados Unidos voltem a participar na ação climática, nas COPs, voltem a colaborar nesses foros internacionais. Acho importante também lembrar que o motor de crescimento não é os Estados Unidos nesse momento. O motor de crescimento de renováveis, na realidade, é a Ásia. Tanto no que é eólica, solar, como também na eletrificação, é a Ásia que está na liderança.

O Brasil nesse cenário global está como? O Brasil, historicamente, era líder em energias renováveis e teve muito sucesso em descarbonizar seu sistema. Primeiro com hidrelétricas, depois com eólica e solar. [Mas] Tem enfrentado o que chamam de curtailment e problemas de balancear o fornecimento e a demanda. Isso tem um efeito sobre os investimentos, o crescimento, e ainda estamos um pouco nesta crise.

O mercado ficou mais lento, e também tem um pouco [a questão] de se o Brasil está aproveitando as oportunidades, porque tem um mercado que está crescendo. O mercado eólico, por exemplo, teve um ano recorde no ano passado. E o Brasil, em frente a esse panorama, tem uma oportunidade importante, mas, na minha opinião, não está aproveitando.

Por que o Brasil está perdendo essas oportunidades? Em nível de governo, o Brasil apoia renováveis e uma transição verde. No detalhe, o mercado foi muito difícil esses anos e teve uma certa dificuldade das autoridades em solucionar gargalos. Na parte de implementação, poderia melhorar.

No Brasil, por exemplo, a eólica em 2023 foi 4,8 gigawatts, um dos quatro mercados mais importantes do mundo, também com quantidades importantes de fábricas, trabalhadores, conhecimento técnico. E uma base industrial que poderia também exportar para o resto do mundo, sobretudo nesse boom de eólica e renovável. Essa capacidade não está sendo aproveitada, por esses gargalos no mercado local, que criam um efeito depressivo nos investidores.

Fábricas fechando ou reduzindo a capacidade, deixando as pessoas irem embora. [O Brasil] Não está usando essa base industrial para ser líder nesse mercado mundial das energias.

É um problema só do setor ou da indústria brasileira? O problema do curtailment é uma falta de balanço temporário entre essa capacidade instalada, a demanda e quando há demanda. Por exemplo, a introdução massiva da solar fotovoltaica causou uma falta de balanço no sistema. Foi introduzida um pouco sem planificação, e se sabe, por exemplo, que a solar está produzindo durante o dia e não necessariamente nos lugares onde precisa capacidade durante as horas-pico. São questões de coordenação.

Tem que ter a transmissão, em alguns casos armazenamento, uma mistura correta entre fontes. A hidrelétrica e eólica se complementavam muito bem no mercado durante muito tempo no Brasil. É achar outra vez esse balanço.

A segunda questão é a eletrificação, porque a parte elétrica do Brasil já está muito avançada, descarbonizada, dominada pelos renováveis. Mas o resto da economia ainda está alta em carbono, tem muitos setores que têm que eletrificar, como indústria química, transporte. Isso criaria um ritmo de demanda também muito maior para o setor renovável.

A solução seria construir essas redes? Como evitar que isso gere um custo muito pesado para as tarifas de energia? O que vejo é que estão um pouco olhando as soluções antigas, por exemplo, reintroduzir o gás como backup. Essas questões não são soluções para o futuro. [As soluções] São investimentos que depois vão resultar num sistema moderno que estará apto para o futuro. Não adianta simplesmente criar mais capacidade, usando gás, por exemplo, que é muito mais caro que renováveis, porque não vai utilizar as vantagens competitivas que o Brasil tem. Tem que otimizar o sistema para essas tecnologias, não introduzir tecnologias velhas e caras, como o gás.

Que sinal a reeleição do presidente Lula passa para o setor? O governo Lula, historicamente, tem tido um compromisso muito grande com as renováveis. Temos toda a esperança de que isso vai continuar. Agora que terminaram as eleições, uma questão é assegurar que o trabalho dos sistemas regulatórios, dos mecanismos de mercado, esteja apto para o período que vem.

Olhando a questão dos data centers, por exemplo, isso vai criar uma demanda muito grande, como também o crescimento dos veículos elétricos no Brasil. Essa onda de demanda vem. É importante que o sistema esteja feito para aproveitar essa base de renováveis e também criar uma indústria de produção, de fornecimento dos equipamentos.

O Brasil tem vantagens competitivas para os data centers? Ou também estamos perdendo oportunidades nessa área? Tem vantagens competitivas muito grandes. Tem a eólica com os melhores ventos do mundo, no Nordeste. Sol, recursos hidrelétricos que se pode usar também para estabilizar o sistema. O Brasil está no centro dos sistemas de dados mundiais, com os cabos transatlânticos.

Já estamos vendo oportunidades muito grandes. Mas é importante também enfatizar [que] o marco regulatório e o desenho do mercado têm que estar estruturalmente preparados para o futuro, para aproveitar essa abundância energética competitiva. Por exemplo, as negociações sobre a lei do Redata são importantes.

Como avalia essa política? Outros países também adotaram o mesmo tipo de política? O Redata realmente foi inspirador, e o Brasil, como em muitos casos, tomou uma posição avançada. Ele olhou o futuro. O Redata faz uma coisa importante: assegura adicionalidade. Não está colocando mais pressões sobre o sistema e sobre os preços, competindo com a energia que vai para os consumidores. Em segundo está o princípio de que a energia tem que vir de fontes sustentáveis e, sobretudo, renováveis.

Foi um passo importante. E tem discussões em outros países. A Espanha, por exemplo, tem uma discussão muito semelhante. Agora esperamos que a lei [brasileira] seja implementada com o mesmo espírito que foi criada.

O curtailment pode trazer algum tipo de insegurança para esses investimentos em data centers? Essa é uma das questões que estamos falando muito na nossa iniciativa das redes, tem que ser uma energia muito firme, de alta qualidade. Mas estamos convencidos de que se pode fazer um crescimento de data centers baseado em renováveis. Não pode ser que a gente esteja criando data centers como um bem público e depois a gente termine fazendo com energia não sustentável, cara, que compete com o consumidor. Esse não é o futuro que o público quer.

Britânico, possui mestrado em ciência política pela Universidade de Londres, onde estudou economia e política da América Latina. Atuou como analista e correspondente internacional, cobrindo temas como política, macroeconomia e energia. Em 2008, ingressou no segmento de energias renováveis, onde fez carreira e passou a ocupar funções executivas. Desde 2018, é CEO do Conselho Global de Energia Eólica. Em 2023, assumiu como presidente da Aliança Global pelas Energias Renováveis.