Brasil mira até super-ricos para bancar US$ 1,3 tri em financiamento climático

Em uma espécie de último ato, a presidência brasileira da COP30 divulgou neste domingo (8) em Antália, na Turquia , a versão final do relatório de financiamento que se propôs a elaborar no encerramento da conferência, em Belém , no ano passado.

Por Admin ·

Brasil mira até super-ricos para bancar US$ 1,3 tri em financiamento climático

"Implementando Baku a Belém, mapa do caminho para US$ 1,3 trilhão" traz no nome a cifra crítica de financiamento, algo como R$ 7 bilhões, para os países em desenvolvimento enfrentarem a crise climática.

O mapa do caminho, segundo o documento, entrega um roteiro capaz de indicar "caminhos financeiros concretos e intervenções políticas" que podem fazer o suporte alcançar de US$ 1,27 trilhão a US$ 1,41 trilhão anual até 2035.

Insistindo que o relatório não era algo a ser negociado, mas o caminho de implementação do que já foi decidido pelos países, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou que não esperava "nenhuma" evolução do documento em Antália.

"Nada do que aqui consta precisa ser levado às negociações. Trata-se de um documento voltado para a implementação", afirmou o embaixador, às vésperas da COP31 , que a Turquia organiza em conjunto com a Austrália .

"Houve uma decisão em mutirão, em Belém." Nada, porém, que obrigue os países a cumprirem as recomendações, algumas delas consideradas complexas, como taxar grandes fortunas, combustíveis fósseis, criptomoedas, transações financeiras, passagens aéreas e transporte marítimo.

"Não entramos no mérito de quão viáveis politicamente essas medidas são, mas reconhecemos que esses mecanismos inovadores não estão ganhando o impulso que talvez seja necessário", afirmou Luiz de Andrade Filho, coordenador de Finanças Climáticas da COP30.

Se nada for feito, "business as usual" no jargão da conferência, o volume de recursos transferido para nações mais pobres chegaria a US$ 461 bilhões anuais em 2035, algo como um terço do necessário. Neste momento, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), a contribuição é um décimo do necessário .

Para tanto, o relatório aponta para seis fontes diferentes de financiamento. Além da taxação de capital e grandes sistemas poluidores, a proposta não abre mão do dinheiro público, que deveria dobrar do patamar atual de US$ 160 bilhões.

Na mesma linha, o investimento privado deveria multiplicar por dez os atuais US$ 94 bilhões despendidos, com regulação e estímulos públicos que favorecessem a decisão de aportar recursos em projetos relacionados à mudança climática .

O TFFF, o fundo de florestas idealizado pelo Brasil, que corre atrás de recursos em Antália para viabilizar seu lançamento , serve como exemplo —US$ 25 bilhões de países usados para catalisar US$ 100 bilhões do mercado financeiro.

Um quarto caminho seria a cooperação dentro do chamado Sul Global, em que a China já é protagonista. Outros US$ 20 bilhões anuais poderiam sair de reservas do FMI (Fundo Monetário Internacional) e até US$ 144 bilhões do mercado de créditos de carbono.

A miríade de opções, segundo Corrêa do Lago, é fruto da contribuição de economistas renomados, como o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Columbia, do inglês Nicholas Stern, do Graham Institute, da francesa Esther Duflo, ganhadora do Nobel de Economia em 2016 e do também francês Gabriel Zucman, defensor de um controverso imposto global de 2% sobre bilionários .

"Já temos algumas experiências [em curso]", lembrou Andrade Filho, citando a perspectiva de aprovação do marco regulatório do transporte marítimo no próximo mês e a taxação do setor aéreo em alguns países.

"Negociações são ótimas, mas só se tornam reais se mudarmos a vida das pessoas no dia a dia", afirmou Ana Toni, CEO da COP30. "Por isso, precisamos transformar o que estamos negociando em produtos concretos, em políticas reais que cheguem às pessoas , na prática. Caso contrário, tudo isso se torna muito abstrato."

Nesta segunda-feira (9), Toni e Corrêa do Lago transferem a presidência da conferência à Turquia e à Austrália .