Argumentei em artigo na Ilustríssima que o Brasil ia às urnas dividido entre aqueles que viram sua vida melhorar com políticas públicas sustentáveis dos anos lulistas, e aqueles que se ressentem e projetaram seus sonhos em projetos políticos ultraindividualistas e alinhados à extrema direita .
Em uma das minhas últimas pesquisas sobre as aspirações de quem saiu da pobreza por meio de políticas sociais, encontrei uma nova geração que rejeita o extremismo. Em um dos maiores processos de mobilização social já vistos na história do país, essas pessoas lutaram pela democracia nas últimas semanas e levaram seus avós às urnas.
Elas entendem que as aspirações alcançadas são resultado de esforço individual e de políticas públicas combinadas ao longo de gerações. Veem o Estado como aliado nessa trajetória. Sabem que as melhorias vêm com o tempo e não são garantidas. Sem essa memória viva do que significa mobilidade social na prática, não haveria André Janones que pudesse resolver a eleição.
Mas eu ainda quero falar sobre a outra metade da base ascendente da pirâmide social . Aquela que tem aspirações legítimas de ascensão, mas percebe o Estado como ausente nesse projeto. A que votou em Flávio Bolsonaro ( PL ) ou simplesmente não foi votar por não estar mobilizada. Essas pessoas ainda estarão no centro das disputas ideológicas nos próximos anos.
A força da mobilização política venceu. Mas a transformação da classe trabalhadora continua a avançar rapidamente, com tecnologia alienante, desagregação social e fé na meritocracia vazia. O sonho da prosperidade pelo empreendedorismo e da autonomia também cresce.