Bloqueio de financiamento ameaça órgão científico da ONU sobre o clima

O trabalho do principal órgão científico sobre aquecimento global está em risco por causa da não aprovação de seu orçamento, segundo cientistas e negociadores. O quadro resulta de uma ofensiva promovida por nações dependentes de combustívei

Por Admin ·

Bloqueio de financiamento ameaça órgão científico da ONU sobre o clima

O estrangulamento do financiamento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), apoiado pela ONU e formado por centenas de especialistas internacionais, ocorre após o fracasso em resolver um impasse, que se estende há três anos, sobre quando as próximas pesquisas do grupo deverão ser divulgadas.

O orçamento do órgão não foi aprovado em reuniões realizadas na Etiópia —esses encontros acabaram suspensos no último dia 16. De acordo com pessoas envolvidas nessas conversas, o IPCC estava sendo mantido refém das discussões acerca do cronograma de publicação.

Bart van den Hurk, copresidente do grupo de trabalho do IPCC responsável por avaliar os efeitos do aquecimento global e a necessidade de adaptação, disse à reportagem que a incapacidade "de chegar a um acordo sobre o orçamento está afetando concretamente a implementação" do plano de trabalho do grupo.

Países como Arábia Saudita , Índia e China pressionaram pelo adiamento da publicação dos relatórios do IPCC para 2029. Eles argumentam que é necessário mais tempo para permitir que nações em desenvolvimento contribuam plenamente para as conclusões.

O adiamento significa que informações cruciais a respeito das mudanças climáticas não estariam disponíveis para a cúpula da COP da ONU em 2028, quando deverá ser feita uma avaliação decisiva dos esforços de cada país para enfrentar as mudanças climáticas.

A falta de um orçamento aprovado é preocupante, na avaliação de Bart Verheggen, consultor climático do instituto meteorológico KNMI e representante dos Países Baixos no processo do IPCC.

Segundo ele, havia planos para que os autores principais dos relatórios se reunissem no início do próximo ano, porém "ainda não havia informações sobre a possibilidade de [essas reuniões] ocorrerem".

Isso poderia resultar em um atraso de fato na publicação dos relatórios, acrescentou, o que era "exatamente o objetivo defendido por alguns dos países".

A reunião do IPCC na Etiópia foi suspensa sem que houvesse acordo sobre o cronograma de publicação de três relatórios: um sobre o nível e as causas das mudanças climáticas; outro sobre como os países podem se adaptar; e um terceiro sobre as opções para evitar que elas se agravem.

Esta última é a questão mais controversa entre as economias mais dependentes de combustíveis fósseis, entre as quais as de Arábia Saudita, Índia e China. Esses países argumentam que a publicação antecipada poderia comprometer a qualidade dos relatórios e sobrecarregar as nações em desenvolvimento, que não dispõem de capacidade para analisar rapidamente milhares de páginas de texto.

No entanto, países europeus, pequenos Estados insulares vulneráveis às mudanças climáticas e muitas nações em desenvolvimento estão entre os que defendem que os relatórios precisam ser divulgados antes da cúpula da COP, em 2028.

A ativista chadiana Hindou Oumarou Ibrahim, presidente do Planetary Guardians, grupo formado por cientistas e defensores do meio ambiente, afirmou que o atraso prejudicava as contribuições de cientistas do mundo em desenvolvimento, que eram "essenciais para garantir que as avaliações reflitam as realidades e prioridades nacionais".

"As mudanças climáticas não vão esperar a aprovação de um orçamento", disse ela.

John Henry Melo Pineda, assessor do Panamá para negociações multilaterais sobre mudanças climáticas, afirmou que o IPCC havia sido deixado em um "limbo sem precedentes".

"Algumas delegações do bloco minoritário ameaçaram repetidamente não aprovar o orçamento caso suas condições relativas ao cronograma não fossem aceitas", escreveu ele em uma publicação no LinkedIn.

O IPCC afirmou que, como a reunião foi suspensa, "há itens ativos na pauta... eles permanecem em aberto e em discussão. Não podemos comentar assuntos em andamento".