Corretora protocolou pedido de autorização para atuar como prestadora de serviços de ativos virtuais no Brasil
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São Paulo A Binance Brasil informou, em comunicado divulgado nesta sexta-feira (30), que os saques de clientes no país estão suspensos após um ataque hacker que resultou no roubo de quase US$ 6,3 bilhões (R$ 33 bilhões) na última quinta-feira (29).
A suspensão dos saques foi adotada como medida preventiva, enquanto a corretora realiza verificações de segurança. A empresa não informou quando o processo deve ser concluído.
A medida acompanha a ação adotada no contexto global. Ao anunciar o ataque, a corretora já havia afirmado que realizava verificações de segurança e que retomaria os saques assim que o problema fosse totalmente resolvido.
Na última quinta-feira (29), a Binance informou o congelamento de US$ 2,54 bilhões . Nesta sexta, anunciou o valor total roubado, o que tornaria o ataque o maior da história do setor. Até então, o recorde era de US$ 1,5 bilhão subtraído em fevereiro de 2025 da plataforma Bybit.
A empresa afirma que os fundos de seus clientes permanecem seguros no Brasil e que os ativos virtuais são mantidos em "cold wallets" (carteiras frias) no país, desconectadas da internet. Na prática, o armazenamento offline dificulta o acesso remoto e reduz a exposição a ataques digitais.
A Binance também diz seguir as regras de segregação de recursos estabelecidas pelo BC, que exigem a separação entre os ativos dos clientes e os da própria instituição. A medida busca proteger os recursos dos clientes principalmente em situações de falência ou recuperação judicial da companhia.
No Brasil, a empresa está entre as que solicitaram ao Banco Central autorização para atuar como Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAV). A plataforma busca uma licença para atuar como intermediária de ativos virtuais no país, ou seja, para intermediar a negociação e a distribuição desses ativos.
Para Caio Motta, arquiteto sênior de soluções da Chainalysis para a América Latina e o Caribe, a prioridade da empresa deve ser conter o ataque e impedir novas transferências. Isso exige isolar sistemas comprometidos e interromper operações afetadas. Segundo ele, a suspensão dos saques e o congelamento de recursos fazem parte desse esforço.
Motta diz que os mecanismos de proteção mencionados pela Binance, como carteiras frias e segregação patrimonial, são importantes, mas não oferecem proteção absoluta. "A segregação patrimonial não impede, por si só, uma transferência fraudulenta [...] A segurança de uma carteira fria depende da proteção das cópias de segurança. Se um criminoso obtiver acesso às chaves privadas, ele poderá, em regra, movimentar os ativos mesmo que estejam em carteiras frias", afirma.
As corretoras também devem limitar os valores mantidos em carteiras quentes, ou seja, conectadas à internet, verificar destinatários e permissões antes de autorizar transações, segundo Motta.
Carlos Akira Sato, cofundador da Syscapital e especialista em mercados regulados e tokenização de ativos, diz que, para o investidor brasileiro, o risco imediato é a indisponibilidade dos recursos. "O cliente pode visualizar um saldo, mas não conseguir transferir seus ativos, cumprir compromissos ou administrar sua exposição ao mercado."
Já Débora Cunha Romanov, sócia do escritório MYLaw Advogados, ressalta que o comunicado da Binance afirma que os ativos dos clientes locais estão segregados. Se essa informação se confirmar, diz ela, o impacto para os brasileiros ficará restrito à suspensão temporária dos saques.
"Se clientes brasileiros tiverem perdido ativos, a tendência é que a plataforma responda pelo ressarcimento. A lei que regula o mercado de criptoativos manda aplicar o Código de Defesa do Consumidor a essas operações. Pelo CDC, o prestador de serviço responde por falhas independentemente de culpa."
A Binance mantém um fundo de ativos seguros para os usuários, uma reserva de US$ 1 bilhão em bitcoin destinada a proteger os ativos dos clientes em caso de falhas de segurança, segundo seu site. Teng, co-CEO da empresa, disse que o fundo e outros recursos da companhia cobririam as perdas.
Segundo relatório anual, a empresa ultrapassou 300 milhões de usuários cadastrados em 2025. Já a plataforma CoinMarketCap, referência no setor, apontava reservas financeiras de US$ 165,12 bilhões em 1º de outubro de 2026.
Ainda não há certeza sobre a origem do ataque hacker. A empresa disse que uma investigação inicial apontou que a invasão teria ocorrido por meio de um laptop pertencente a um engenheiro de DevOps, profissional responsável por integrar o desenvolvimento de softwares à operação e à manutenção de sistemas de tecnologia .
O funcionário teria acesso a informações sensíveis que permitiram aos invasores acessar os sistemas da empresa e realizar saques não autorizados. A maior parte do roubo teria acontecido em 20 minutos. "Nossa equipe de segurança está rastreando todo o percurso do ataque por meio do computador comprometido, que pode ter sido o ponto de entrada do incidente", afirmou a Binance. Mais tarde, a empresa acrescentou ter descoberto outros pontos de invasão.
As empresas norte-americanas de pesquisa em blockchain TRM Labs e Chainalysis apontaram semelhanças entre o ataque e roubos anteriores atribuídos ao TraderTraitor, grupo de hackers vinculado à Coreia do Norte.
O incidente repercutiu no mercado de criptomoedas. Por volta das 16h, o bitcoin recuava 5,40%, a US$ 76.480, no menor patamar em um mês.