Para isso, o colunista da Folha constrói uma narrativa em ritmo de devaneio, com uma prosa marcada pela dúvida que remete ao Alzheimer , evocado no livro como símbolo de uma consciência aprisionada, que suspeita que há mais coisas acontecendo do que ela pode compreender.
Na trama, o narrador recebe um email de Ana Maria, sua antiga colega de classe da sexta série da escola. Ela o convida a escrever o libreto de uma opereta que ela compõe a partir do único romance do ilustrador Alfred Kubin , "O Outro Lado" —também chamado por seu autor de "A Cidade do Sonho"— e de uma história contada pelo xilogravador brasileiro Oswaldo Goeldi em uma carta ao austríaco.
Na mensagem, Goeldi lembra a violência contra uma mulher escravizada que, depois, amaldiçoa um homem e seus descendentes e os condena a perder o domínio da linguagem.
Para Ana Maria, a história de Kubin sobre um protagonista jogado em um domínio onírico, em um sonho compartilhado por várias pessoas, remetia a um tipo de alucinação coletiva que acomete a todos em certos momentos da história.
É o que os deixa "acreditando que lutamos contra a opressão, pela liberdade, pelo outro, e, no fundo, lutando pelo mesmo, pelo que já conhecemos", como ela diz. Isso, para Bernardo Carvalho, também é o mal do mundo hoje.
"A gente vive nesse consenso que é o capitalismo, ou mercado, ou o que seja, sem conseguir olhar de fora. Acho que o Alzheimer, ou a demência, é uma imagem potente como metáfora histórica para esse aprisionamento que tenho a impressão de que a gente vive", diz o escritor.
"Não tem crítica porque não tem distância, não tem exterior. A gente nunca conheceu outra coisa e acha que não pode haver outra coisa."
O contato com a antiga colega faz o narrador relembrar os anos de escola —na época em que estudou com Ana Maria, sua classe foi desfeita após um incidente envolvendo Dulce, menina negra da mesma sala.
Tentando desvendar que incidente foi esse, que ficou na sua memória como um roubo de natureza desconhecida, ele revisita lembranças como o cotidiano escolar, seu interesse pelo professor de matemática, sua paixonite pelo irmão de Ana Maria e o ciúme pela amizade entre ela e Dulce.
A narrativa de busca na memória logo se encaminha para uma investigação. O protagonista passa a visitar pessoas que podem saber algo sobre o que aconteceu no ano daquela separação e sua ligação com o convite de Ana. Os encontros, no entanto, preenchem poucas lacunas, e o que surge de novo só levanta mais questões.