Belchior, que completaria 80 anos, tem interesse renovado pela sua obra e vida

No Brasil, a morte costuma tirar muitos artistas de circulação. Alguns são esquecidos pelo público bem antes disso. Com Belchior, aconteceu quase o contrário. O cantor e compositor cearense, morto em 2017 , aos 70 anos, atravessa um período

Por Admin ·

Belchior, que completaria 80 anos, tem interesse renovado pela sua obra e vida

Nesta segunda-feira, quando completaria 80 anos, Belchior será homenageado com a exibição de um novo documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o lançamento de dois livros, um deles no Rio de Janeiro.

A movimentação se soma a uma série de televisão lançada em agosto e a um longa-metragem que chegará aos cinemas em dezembro. Há ainda outro documentário em preparação, dedicado ao período em que o músico se afastou da vida pública .

O mais imediato desses lançamentos é "Alucinação", documentário dirigido por Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano, que terá sessão às 18h no CineSesc, na capital paulista. O filme, que passou pelo Festival do Rio, toma como ponto de partida o disco homônimo lançado em 1976, que também completa 50 anos.

É uma obra que dispensa a estrutura convencional das biografias musicais. Em vez de reconstituir a infância, o início da carreira e a consagração de Belchior, os diretores decidiram tocar, na íntegra e na ordem original, as dez faixas do álbum, acompanhadas por imagens de arquivo do Brasil dos anos 1970.

O resultado é uma espécie de retrato de época, em que as canções dialogam com cenas de pobreza, migração, desigualdade social, manifestações culturais e transformações de comportamento durante a ditadura militar. O disco funciona como roteiro e, em certa medida, como narrador.

"Eu comecei a ouvir esse disco obsessivamente e fui percebendo que o roteiro já estava pronto dentro desse disco", afirma Renato Terra, também diretor de "Uma Noite em 67" . Para ele, "Alucinação" registra o confronto entre uma juventude que buscava transformar o país e as forças conservadoras que resistiam às mudanças. Esse embate aparece tanto nas letras quanto na sequência das músicas.

Em "Apenas um Rapaz Latino-Americano", Belchior se apresenta. "Velha Roupa Colorida" anuncia a necessidade de mudança. "Como Nossos Pais" constata a derrota de parte das utopias juvenis. "Sujeito de Sorte" recupera o impulso de resistência.