BBC entra na Faixa de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam

Em uma ala de isolamento do hospital Nasser, na Faixa de Gaza , Raseel, uma menina de 6 anos com ferimentos graves, chora deitada em uma cama.

Por Admin ·

BBC entra na Faixa de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam

Raseel sente dores constantes. Ela sofreu uma fratura grave na perna direita, tem feridas infectadas nas pernas e na mão, e está com um estilhaço alojado no cérebro.

Raseel precisa urgentemente de um enxerto de pele para ajudar a fechar as feridas. Antes, é necessário que elas comecem a cicatrizar. Mas as infecções não respondem aos antibióticos disponíveis em Gaza .

Sem outra alternativa, os médicos precisam reabrir e limpar as feridas de Raseel repetidamente. O procedimento já foi realizado mais de 20 vezes.

Ao lado da cama da filha, o pai, Mahmoud al-Balawi, se inclina para beijá-la. "Não chore", diz ele, com lágrimas nos olhos.

Raseel dormia com a família em uma tenda no campo de al-Mawasi, que abriga palestinos deslocados perto de Khan Yunis , na Faixa de Gaza, quando um ataque aéreo de um helicóptero israelense atingiu o local em 30 de julho, segundo testemunhas.

Sua irmã Rateel, 9, e uma prima de 20 anos morreram. A mãe e o irmão de Raseel ficaram gravemente feridos. As forças israelenses afirmam não ter registros de um ataque naquele momento ou naquele local.

Raseel está internada no hospital Nasser há dois meses. Segundo Awni al-Jaafarawi, médico da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) que acompanha seu tratamento, as feridas da menina estão infectadas por bactérias resistentes a vários medicamentos.

A resistência aos antimicrobianos ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas sofrem alterações ao longo do tempo e deixam de responder aos medicamentos usados para combatê-los. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o problema uma das maiores ameaças à saúde pública mundial.

Infecções resistentes a antibióticos são mais difíceis e mais caras de tratar e podem provocar doenças graves, sepse e até a morte. "A menina [Raseel] terá que permanecer internada por mais tempo e, por isso, contrairá outras infecções, o que dificultará ainda mais sua recuperação", diz al-Jaafarawi.

Mas Raseel não é a única paciente cujos ferimentos não respondem aos antibióticos. Segundo al-Jaafarawi, os hospitais de Gaza registram altas taxas de infecções resistentes a esses medicamentos.

"Atualmente, tentamos manter muitos desses pacientes em isolamento porque as bactérias que eles carregam podem afetar o funcionamento da unidade de saúde a longo prazo, o que exige medidas especiais", afirma al-Jaafarawi.

O que al-Jaafarawi observa nos hospitais é reforçado por um novo estudo, compartilhado com o serviço mundial da BBC, que aponta uma resistência bacteriana generalizada a antibióticos-chave em Gaza.

Segundo os pesquisadores, o estudo, realizado ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025, analisou quase 80 mil amostras bacterianas coletadas em 11 hospitais, sendo a maior análise sobre resistência aos antimicrobianos já realizada em Gaza.

A pesquisa foi conduzida por cientistas de Gaza, com o apoio de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Fleming Initiative, do Imperial College London, no Reino Unido , e da Universidade Americana de Beirute, no Líbano.

O estudo ainda não passou por revisão por pares, processo em que especialistas independentes avaliam a qualidade científica de uma pesquisa, e seus resultados são preliminares.