O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma longa lista de tarefas a cumprir após conquistar uma vitória eleitoral surpreendente no Brasil no mês passado. No topo dessa lista, está encontrar uma solução para o Banco do Brasil , instituição controlada pelo governo que enfrenta dificuldades. Uma das alternativas pode envolver recorrer à sua área de seguros.
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A BB Seguridade Participações, holding de capital aberto controlada pelo banco, é proprietária de subsidiárias que utilizam a rede de distribuição da instituição financeira para vender produtos de seguros. Os contratos de compartilhamento de receitas que regulamentam essa relação vencem entre 2031 e 2033, e os investidores avaliam a possibilidade de uma renegociação antecipada, em condições mais favoráveis ao banco.
— Existem alternativas antes que o governo precise fazer qualquer tipo de aporte de capital — afirmou Gustavo Schroden, analista do Citigroup .
Schroden recomenda a venda das ações da BB Seguridade, argumentando que essa seria a primeira opção à qual o banco recorreria para reforçar seu capital, seja por meio da venda de parte de sua participação na empresa, seja pela revisão dos contratos de compartilhamento de receitas.
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As discussões podem começar em breve, embora ainda não haja negociações em andamento, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que pediram para não ser identificadas. A prioridade do Banco do Brasil é lidar com o aumento da inadimplência em sua carteira de crédito para o agronegócio, afirmou uma dessas pessoas, acrescentando que é pouco provável que qualquer negociação envolvendo a BB Seguridade comece antes de Lula decidir se fará mudanças na administração do banco.
A atual presidente-executiva do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, deverá ser substituída, como informou O GLOBO na semana passada, o que poderá representar uma mudança de estratégia.
A escolha para o principal cargo da instituição geralmente cabe ao presidente da República, e a maioria dos executivos que ocuparam a posição veio dos próprios quadros do banco. No entanto, o cargo é cobiçado por políticos devido à influência que proporciona.
— Ao longo dos anos, o banco aprendeu que existe uma passagem de bastão — afirmou Eduardo Nishio, analista da Genial Investimentos. — O que importa, na minha opinião, especialmente como forma de motivar os funcionários, é que a pessoa escolhida seja alguém de dentro do banco, um funcionário de carreira.
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Os poucos executivos de fora que assumiram o cargo no passado tiveram mandatos mais curtos, como Rubem Novaes e André Brandão, ambos indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro . Medeiros, primeira mulher a ocupar a presidência do Banco do Brasil, permaneceu no cargo durante todo o terceiro mandato de Lula e promoveu apenas algumas mudanças em sua diretoria.
Muitos investidores consideram a BB Seguridade uma opção mais segura entre as duas empresas, porque suas atividades não envolvem riscos de crédito. As ações da seguradora acumulam alta de 4,4% neste ano, em comparação com a queda de 24,8% dos papéis do Banco do Brasil, o pior desempenho entre os maiores bancos brasileiros.
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No dia seguinte à eleição presidencial do mês passado, as ações do Banco do Brasil recuaram 29%, a maior queda em pelo menos 32 anos. O movimento foi motivado por preocupações de que a política fiscal do governo Lula prejudicasse as perspectivas de redução das taxas de juros.
O Citi rebaixou a recomendação para as ações do banco para venda no dia seguinte, afirmando que a expectativa de aumento das taxas de juros poderia prejudicar ainda mais a capacidade da instituição financeira de gerar receitas.
O lucro líquido ajustado do Banco do Brasil no primeiro semestre de 2026 foi de R$ 7,34 bilhões (US$ 1,4 bilhão), uma queda de 34% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo maior banco da América Latina
O Banco do Brasil é o segundo maior banco da América Latina em volume de ativos. Também é o maior financiador do agronegócio no Brasil, mas o setor, há muito tempo um dos motores da economia do país, enfrenta atualmente um aumento da inadimplência, enquanto as margens de lucro dos produtores rurais permanecem pressionadas. O impacto dessa situação sobre os resultados do banco colocou sua posição de capital sob os holofotes.
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Um programa governamental de renegociação de dívidas destinado aos produtores rurais teve adesão menor do que a esperada, alimentando especulações de que o banco poderá precisar buscar recursos para reforçar seu capital em breve, segundo relatório divulgado em outubro pelo Banco BTG Pactual .
Um representante do Banco do Brasil se recusou a comentar. A BB Seguridade não respondeu ao pedido de manifestação.
O capital de Nível 1 (Common Equity Tier 1, ou CET1) do banco estava acima do patamar de 11% que a instituição afirmou pretender manter, e os executivos da companhia disseram esperar que ele permaneça próximo desse nível daqui para a frente.
No entanto, uma parcela crescente do patrimônio líquido dos acionistas é composta por créditos decorrentes do pagamento excessivo de impostos, considerados de qualidade inferior porque não estão imediatamente disponíveis para utilização.
Esse percentual chegou a 53% no segundo trimestre, ante 37% quatro anos antes, segundo relatório do Goldman Sachs Group. Espera-se que ainda mais ativos fiscais sejam constituídos, uma vez que eles decorrem, em sua maioria, de provisões para perdas com empréstimos.
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Desde o ano passado, os bancos brasileiros têm um prazo de dez anos para se desfazer desse tipo de ativo acumulado antes de 2024. Caso não consigam gerar lucro suficiente para isso, deverão deduzir seu valor diretamente do patrimônio líquido dos acionistas.
— A qualidade do capital próprio vem diminuindo e, na minha avaliação, o banco poderá enfrentar problemas de capital mais adiante— afirmou Schroden, do Citi.
Em uma tentativa de preservar seu capital, o Banco do Brasil renegociou os pagamentos de um instrumento híbrido de capital de R$ 4,2 bilhões devido ao governo, adiando a maior parte desses pagamentos para 2029, informou a instituição em junho.
A medida preservaria cerca de sete pontos-base de capital em 2026 e 2027 e fez parte de uma estratégia mais ampla de capitalização, que também incluiu um corte nos dividendos no ano passado.
— Isso dá ao banco um pouco de fôlego— afirmou Alexandre Albuquerque, analista da Moody’s Investors Service.
No início deste ano, o banco elevou seu limite de capital total, mas as alternativas para captar novos recursos e atingir o novo patamar são mais restritas do que no passado. Restrições introduzidas ao longo da última década reduziram as possibilidades de o governo injetar recursos na instituição, enquanto a participação acionária pouco acima da maioria deixa pouca margem para diluição sem colocar em risco o controle do banco.
O governo brasileiro detém pouco mais de 50% do Banco do Brasil, e suas atuais dificuldades fiscais tornam mais difícil uma nova injeção de recursos, afirmou Albuquerque. Segundo o analista, a administração do banco já informou a investidores que não descarta a venda de ativos.
As estimativas dos analistas acompanhados pela Bloomberg para o lucro do Banco do Brasil no terceiro trimestre caíram cerca de 24% nas últimas semanas, para R$ 3,3 bilhões. Os pagamentos em dia permaneceram em 75%, abaixo dos 90% que o banco esperava para o segundo semestre do ano, segundo relatório do BTG Pactual, aumentando a possibilidade de elevação do custo do crédito.
— O banco está em uma situação muito complexa — afirmou Schroden, do Citi. — Alguma coisa precisa ser feita.
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