Antes de se mudar com a família de Portugal para o Brasil, na década de 1930, Augusto Pereira, construtor e habilidoso carpinteiro, fez um baú para transportar as roupas durante a viagem de navio. Ele morreu aos 59 anos, e a peça ficou com a filha Alice, que, em fevereiro de 2013, faleceu aos 84. Hoje, o móvel está sob os cuidados dos netos José Augusto, de 63 anos, e Ana Maria, de 66, que dividem um apartamento na Tijuca. Após uma ampla reforma no endereço, o baú, restaurado, ganhou lugar de destaque em um corredor.
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— Esse baú, que carregou as roupas dos meus avós e da minha mãe (também nascida em Portugal), guarda boa parte da história de nossa família, pelo lado materno. Por isso, é tão importante — diz José Augusto Pereira de Oliveira.
O aposentado, assim como outros leitores do GLOBO, respondeu a um pedido do jornal para abrir caixas de memórias e mostrar relíquias de forte valor afetivo. E-mails de resposta trouxeram fotos de diversos objetos, enviadas de diferentes pontos do Rio e de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia. Uma delas atravessou a fronteira: veio da Argentina.
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O designer Carlos Santos de Jesus Júnior, de 48 anos, morador do Centro de Niterói, guarda com carinho um amplificador Spectro SQA-2100, comprado por seu pai na segunda metade dos anos 1970. Com base em pesquisas que fez em publicações da época, o leitor afirma que o equipamento foi fabricado na primeira metade daquela década, em uma indústria em Bonsucesso, na Zona Norte do Rio. Segundo ele, apesar de artesanal, o aparelho não deixava a desejar em comparação com os importados. O amplificador chegou à família em 1977, depois de passar dois anos com um amigo de seu pai, de quem foi comprado.
— Nos últimos 50 anos, ele encheu nossos ouvidos com música de qualidade. Embalou muitas festas da família, desde a infância até a vida adulta de muitos de nós. Hoje, continua funcionando perfeitamente na minha sala de estar. Acho que vai permanecer assim por pelo menos mais 50 anos — prevê Carlos sobre o equipamento, que está na família desde antes de seu nascimento e passou por uma restauração recente.
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A cantora e compositora Sylvia Patricia guarda como relíquia um projetor de slides alemão da década de 1940 que pertenceu a seu pai. Hoje, o aparelho fica exposto em uma vitrine em seu apartamento, feita especialmente para abrigá-lo junto a outros objetos antigos que ela coleciona.
— É dessas heranças que guardam muito mais do que sua materialidade. Guardam histórias, afetos e um pouco de quem fomos. Também conservo uma pequena caixa de slides que ele trouxe para mim da Rússia, nos anos 1970, e o projetor funciona — garante.
O gosto da família pelas artes vem de longe. Sebastião Valença, avô da cantora, era um pianista pernambucano que foi para a Bahia trabalhar como músico e professor. Lá, conheceu Dália, uma de suas alunas, com quem se casou. Os dois se apresentavam juntos — ela ao violino — e chegaram a tocar em cinemas na época dos filmes mudos, acompanhando as sessões com música ao vivo.
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A relíquia do advogado Luiz Felipe Waitz é formada por dois objetos minúsculos que, estima ele, estão na família há mais de 130 anos. Os sinetes — pequenos carimbos em alto ou baixo-relevo com iniciais, brasões ou símbolos de uma família ou pessoa — serviam para autenticar ou selar correspondências e documentos oficiais com a ajuda de cera quente. As duas peças — uma em formato de anel e outra, de pingente — pertenceram a seu tataravô, Sebastião Lopes da Costa Pinho, português nascido em Braga, em 1856, e morto no Rio, em 1914. Ele fez fortuna aqui explorando o mercado de capitais e, após uma generosa doação, recebeu do então rei de Portugal, Dom Carlos I, o título de conde.
— Esses sinetes são importantes para mim porque conectam minha história à de um personagem mítico da família e a um tempo que não vivi e não volta mais — afirma o morador do Flamengo.
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Segundo ele, o terreno onde hoje fica o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio, foi vendido por seu tataravô a Eduardo Guinle.
— Pela história, é possível perceber que esses dois objetos estão na família há pelo menos 135 anos e continuam conosco. Ficavam na casa do meu avô, que era neto do conde, e me lembro de brincar com eles quando criança. Meu avô derretia cera, e eu ficava “selando” uma folha de papel ad nauseam com os sinetes — conta Luiz Felipe.
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Kátia Regina Gonzalez tem uma máquina de costura que pertenceu a uma tia, passou para a avó paterna e hoje está sob sua guarda. Foi nela que a leitora aprendeu a costurar quando criança, fazendo roupinhas para suas bonecas e as das amiguinhas.
— Essa máquina é o abraço diário que recebo da minha vó. É meu templo sagrado, meu oráculo, para onde retorno quando me perco de mim mesma — define.
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A baiana Alana Rocha, de 46 anos, é a guardiã de uma vitrola Philips AH-920 que pertenceu à sua avó. O aparelho foi comprado em 1988, quando a avó se mudou do Rio para a Bahia, meses antes de morrer.
— A vitrola ficou parada, sem uso, em cima de um dos móveis antigos que ela trouxe. Era apenas um enfeite nostálgico, até que um dia resolvi realizar um sonho de criança: colecionar discos de vinil. Um técnico de 70 anos fez o milagre de trazê-la de volta à vida — conta.
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Já a relíquia do geógrafo Alexandre Andrade, de 62 anos, não tem relação com a família, mas com sua memória afetiva como telespectador de novelas. Há 25 anos, ele comprou um conjunto de louças com flores coloridas nas bordas, cada item de uma cor. Conta que nunca havia visto nada parecido até que, ao assistir à primeira versão de “Selva de Pedra” (exibida originalmente em 1972) no Globoplay, deparou-se com peças semelhantes em uma cena com a personagem Rosana Reis (Regina Duarte).
— Não posso garantir, mas creio que seja o mesmo conjunto — diz.
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Uma raquete de tênis, que está na família há pelo menos um século, é a relíquia enviada de Brasília, onde mora desde 1962, pelo paranaense Hamilton Balão Cordeiro. Ele conta que o objeto, que tem enorme valor afetivo para ele, pertenceu a seu pai Arsênio Gonsalves Cordeiro Júnior, que nasceu em 1901, e morreu aos 100 anos de idade
— Ele praticou tênis com ela na sua mocidade, na cidade de Morretes, no Paraná! — afirmou.
O paulista Marcelo Marques trabalha com digitalização de fitas antigas como VHS, slides e negativos e, dessa forma pode conhecer histórias de famílias de clientes que o procuram para recuperar lembranças guardadas em mídias consideradas ultrapassadas. Ele mesmo possui um projetor de filmes de tolo de 16mm fabricado entre os anos 1950 e 1960, que ganhou de um tio avô, e do qual resgatou memórias pessoais.
—Acompanhava uns quatro filmes pessoais, os quais transformei para arquivo digital eternizando as lembranças, histórias e fatos curiosos, etc.
Discos que eram de Ezequiel Neves no lixo
As relíquias do fotógrafo mineiro Guilherme Horta são discos de 78 rotações encontrados no lixo em Belo Horizonte, em 2020, em plena pandemia, quando procurava numa caçamba um caixote para colocar no quintal como suporte de enfeites. As bolachas continham pérolas do fox trot, fox slow e jazz. Uma delas tinha a foto da cantora americana Sarah Vaughan e trazia a música “ Boa noite querido”, assim mesmo grafado em português.
— Pensei comigo: De quem seria aquele acervo fonográfico?
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Curioso com o achado foi atrás de sua história. Voltou ao lugar da caçamba, na Rua Brás Cubas, no bairro Anchieta. Lá conheceu o dono da casa de onde saíram os discos e este relatou que ali morou entre os anos 1950 e 1960, o irmão da sua mãe, que era ninguém menos do que, Ezequiel Neves, produtor musical da Som Livre e do Barão Vermelho, amigo de Cazuza. A história está narrada no livro “Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago", de João Pombo Barile, ganhador do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.
Entre as relíquias estão também uma coleção de miniaturas de aviões da antiga companhia de Panair, enviadas por Cristiano Grimaldi; uma antiga calculadora dos anos 1920, que pertenceu ao pai do leitor Armando Beirão; e uma máquina de escrever, da marca Remington, que acompanhou durante o ensino médio José Luis Minissale, que mora na Argentina, Ele garante que ela ainda funciona.