A vitória do PT também mostra que faz diferença ter agenda. Flávio Bolsonaro ( PL ) apostou no antipetismo, entendeu que suas posições antipopulares se tornaram indefensáveis. Mas não conseguiu oferecer algo que fosse além de uma mímica do que seria a combinação entre um "tesouraço" pouco explicado e uma espécie de lulismo de direita, que parece ter soado falso. A frente ampla, desta vez, veio de baixo. A defesa do SUS, do aumento real do salário mínimo, da vida fora do trabalho, da educação pública, do Bolsa Família, dos investimentos em infraestrutura (luz, cisternas) se amplificou como uma defesa da democracia que tem carne. Ela foi além de uma abstração.
Em conjunto, a mobilização e a adesão a uma compreensão do que está em jogo quando se defende a democracia reduziram a abstenção e os votos nulos e modificaram o resultado das eleições . Entre o primeiro e o segundo turno, os votos em branco caíram de 1,84% para 1,12%; os nulos foram de 2,93% para 2,12%. O principal efeito se deu na queda da abstenção, que passou de 21,08% para 19,21%. A votação de Lula, no entanto, supera essa diferença, indicando que houve "virada de votos".
Sim, o país está dividido. E o Congresso Nacional mostra a força da extrema direita. Mas há uma diferença significativa entre o voto nos cargos proporcionais e para a Presidência do país. A explicitação de uma ameaça que teria efeito na vida das pessoas, no seu cotidiano, trouxe à memória os desmandos do governo de Jair, o pai. Notícias, histórias contadas pelas pessoas e memes evocaram a tragédia da pandemia. As grosserias do pai, distribuídas como amostras de uma violência real e potencial, foram reavivadas pelo deboche do filho .