Assembleia Geral da ONU volta a aprovar resolução contra embargo a Cuba

A Assembleia Geral da ONU voltou a aprovar uma resolução para encerrar o embargo dos Estados Unidos contra Cuba. Foram 130 votos a favor, incluindo do Brasil, 17 contra e 25 abstenções.

Por Admin ·

Assembleia Geral da ONU volta a aprovar resolução contra embargo a Cuba

Neste ano, em meio a campanha dos EUA na organização internacional contra o texto, a resolução teve a menor adesão em 30 anos. Desde 1992 a ONU vota resolução sobre o tema.

Em 1995, última vez em que os votos favoráveis foram menores do que neste ano, 117 aprovaram o texto. Desde então, a aprovação manteve uma tendência de crescimento, chegando, em 2025, a 165 votos a favor, 7 contra e 12 abstenções, após um pico de 191 votos a favor em 2017.

Entre países da América do Latina, votaram neste ano contra a resolução Argentina, Colômbia, Paraguai, Equador e Costa Rica, todos com governos aliados do governo de Donald Trump. Abstiveram-se Chile, República Dominicana, Honduras e Peru. Em favor da resolução, junto do Brasil, votaram México, Uruguai, Nicarágua, Panamá. Não votaram Bolívia, Guatemala, El Salvador e Venezuela.

O debate sobre o texto foi iniciado na terça (27), e a votação foi concluída nesta quarta (28). Houve briga entre o representante dos EUA na organização, Mike Waltz, e o chanceler de Cuba , Bruno Rodríguez Parrilla. A delegação cubana buscou interromper a fala do americano, acusando-o de difamar a ilha. Waltz disse que não seria interrompido e que a delegação tentava tratá-lo como se tratam oponentes na ilha.

Nesta quarta, Waltz falou da tribuna da delegação americana durante a reunião da Assembleia Geral que "o diplomata cubano será colocado em um avião hoje de volta a Havana" pelo que Waltz chamou de agressão, sem detalhar quem seria o diplomata e o que de fato ocorreria.

A primeira vez que a votação sobre essa resolução ocorreu foi em 1992, o ano no qual a adesão foi mais baixa: apenas 59 votos a favor, outros 3 contrários, e 71 abstenções. A votação em apoio foi crescendo paulatinamente, com apenas alguns anos de baixa.

A ponto de, a partir de 2005, apresentar apoios sempre superiores a 180 na Assembleia Geral de 193 membros. Em praticamente todos os anos, Estados Unidos e Israel foram os países que se opuseram, às vezes contando com apoio de mais uma ou duas nações.

A exceção foi 2016. Como no primeiro semestre daquele ano o então presidente americano, o democrata Barack Obama, havia visitado a ilha e desenhava uma reaproximação, o país resolveu se abster , em vez de votar contra a resolução. Foi a única vez que isso ocorreu.

A posição do Brasil também foi praticamente unânime, a favor do texto. Com exceção de três anos, todos eles durante a Presidência de Jair Bolsonaro (PL). Em 2019, o Brasil votou contra . Em 2021 e 2022, absteve-se. Em 2019 e nos primeiros dias de 2021, Donald Trump estava em seu primeiro mandato na Casa Branca, e Bolsonaro era seu aliado.

Na votação desta terça-feira, o Brasil discursou. O representante do país na ONU , Sergio Danese, enumerou relatórios de agências independentes da ONU que mostram como o bloqueio americano tem impedido que ajuda humanitária chegue à ilha.

O embaixador disse que se trata de uma reflexão sobre "os efeitos extraterritoriais da legislação nacional [dos EUA] sobre a soberania de terceiros Estados e os interesses legítimos de seus cidadãos e empresas". Criticou, também, a inclusão de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo.

A primeira vez que a ilha foi incluída nessa lista foi em 1982. Durante o governo de Obama e a reaproximação, em 2015, o país foi retirado . Quando Trump assumiu a Casa Branca pela primeira vez, em 2021, Cuba foi incluída novamente . Pouco antes de deixar o governo, seu sucessor, Joe Biden, retirou a ilha da lista em meio a negociações . Trump imediatamente a colocou de volta ao assumir o segundo mandato em janeiro de 2025. Hoje, ao lado de Cuba integram a lista de Estados patrocinadores de terrorismo a Coreia do Norte e o Irã.

O embargo dos EUA a Cuba existe há mais de seis décadas . Em fevereiro de 1962, o então presidente John F. Kennedy proclamou o bloqueio, que desde então foi sendo agravado ou aliviado, a depender do nível do diálogo com a ilha. Neste segundo mandato de Trump, a primeira ação é a que tem valido.

O republicano impôs sanções mais rígidas, acusações judiciais contra autoridades , como Raúl Castro, e um bloqueio quase total das importações de petróleo para a ilha.

Há uma disputa narrativa sobre a origem da crise socioeconômica cubana, mas organizações internacionais coincidem em sua maioria na análise de que um drama social que já era latente com a administração comunista tem sido agravado rapidamente pelo bloqueio.

Para justificar suas medidas, a Casa Branca argumenta que Cuba representa uma ameaça à segurança regional devido aos supostos aliados do regime de Miguel Díaz-Canel, como a China, o Irã e a Rússia. O tema é especialmente importante para o secretário de Estado de Trump, Marco Rubio. Ele é filho de cubanos e fez sua carreira política na Flórida, o bastião da comunidade cubana nos EUA, para onde emigrou a diáspora que fugia do regime comunista estabelecido no final dos anos 1950.

Quando os EUA invadiram a Venezuela no início deste ano e capturaram o ditador Nicolás Maduro, houve temor de que o mesmo ocorresse em Cuba. Trump, no entanto, tem dito que o caminho na ilha seria a negociação, ainda que sempre insista que mudará o regime que está no poder, de partido único. Ele afirmou na última semana que cuidará do tema após lidar com o Irã , país contra o qual está em uma guerra que vem contribuindo para drenar a sua popularidade perto das eleições de meio de mandato.

Na semana passada, os EUA intensificaram seu lobby para que a votação desta terça-feira tivesse menor adesão. A missão do país na ONU realizou um evento na sede da organização em Nova York com ex-presos políticos de Cuba e convidou delegações amigas . A ideia era convencê-las de que o embargo não é o culpado pelo que ocorre na ilha. O Brasil não foi convidado para o evento.