Dois tiros à queima-roupa mataram a portuguesa Rosalina Ribeiro, 75 anos, em Saquarema em 2009. O suspeito do assassinato é o advogado Duarte Lima, então um dos homens mais influentes de Portugal . Ex-deputado e líder parlamentar do Partido Social Democrata (PSD), a sigla do governo na época e também agora, ele finalmente poderá ser ouvido em tribunal. O julgamento começa em 5 de novembro para tentar solucionar o crime envolvendo uma família que possuía algo como a décima ou nona fortuna do mundo. Na quinta-feira, O GLOBO lança no Brasil o podcast “Quem matou Rosalina?”, uma produção do jornal “Público” e da Coimbra Coolectiva.
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Idealizadora do podcast, a jornalista brasileira Vilma Reis, da Coimbra Coolectiva, questiona a morosidade judicial que fez com que os portugueses deixassem o caso de lado. Ela espera que o podcast e o julgamento retomem o interesse em acompanhar o desfecho de mais um crime contra uma mulher, com o atenuante de apontar um suspeito influente, conectado tanto aos gabinetes do Parlamento quanto aos corredores dos milionários portugueses.
— O que nos interessava era perguntar quem se importa quando uma mulher morre assim e quanto tempo demora a justiça chegar até ela. Se fosse Duarte Lima a ser assassinado em 2009, estaríamos hoje à espera do julgamento do único suspeito? – indaga Vilma Reis.
A história é contada com apoio de vozes de mulheres marcantes, como a atriz Fernanda Montenegro. Ela está na trama do podcast e é uma das que podem ser ouvidas em depoimento recuperado em áudio de arquivo sobre o caso que envolve, entre outros personagens, Olímpia Feteira, filha do milionário Lúcio Tomé Feteira, companheiro de Rosalina.
— A história é contada através de vozes de mulheres marcantes, em entrevistas e áudios de arquivo. Entre elas estão a atriz Fernanda Montenegro, a fadista Maria Alcina, a amiga de Rosalina Arminda Pinheiro e a jornalista Judite Sousa. Quisemos que fossem as mulheres a contar esta história, porque foram elas que ficaram sem nome, sem voz e sem resposta — afirmou Reis.
Quem é Duarte Lima e como este assassinato no núcleo da elite portuguesa foi acontecer em Saquarema? Quase 20 anos após o crime, o jornalista e biógrafo de Lúcio Tomé Feteira, Miguel Carvalho, disse ao GLOBO que o caso atraiu muita atenção em 2009 e durante as seguidas datas de julgamento, adiadas à espera de documentos, enfim enviados pela polícia brasileira este ano.
— Marcou época em Portugal porque ficou centrado no fato de o único suspeito ser deputado e figura de topo do PSD. Ele era líder de bancada, um dos parlamentares mais importantes do PSD na era do Cavaquismo (dez anos de governo de Aníbal Cavaco Silva, entre 1985 e 1995), que teve duas maiorias absolutas e estabilidade inédita. Duarte era dirigente nacional sempre com poder e influência em diversas áreas — lembrou Carvalho.
Uma das áreas de influência de Duarte, também advogado, abrangia o tecido empresarial português, no qual se destacava a família Feteira, dona da maior fábrica do país e uma das principais do mundo na produção de limas industriais. Lúcio Feteira, biografado por Carvalho em "A história desconhecida", viveu quase um século e acumulou fortuna de aproximadamente um bilhão de euros.
— Estamos perante um crime cometido por valores consideráveis. O dinheiro de Lúcio atravessou vários países, ele viveu quase 100 anos e ultrapassou dois regimes políticos. Tinha negócios no Brasil e nos Estados Unidos e acumulou fortuna colossal, sobre a qual se sabe muito pouco — afirmou Carvalho.
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A família começou a brigar pela herança após a morte de Lúcio em 2000, aos 98 anos. Rosalina era sua secretária e companheira e teve direito a uma fatia. Outra parte da metade do total, era para a filha, Olímpia. A esposa de Lúcio, por lei, ficava imediatamente com 50%.
Aqui entra Duarte Lima. Rosalina, enquanto secretária, assumiu parte dos trabalhos de Lúcio quando ele quebrou uma perna e continuou por um tempo após o falecimento do chefe. O ex-deputado seria representante da portuguesa e recebeu 5,2 milhões de euros, que teriam sido transferidos por ela de uma conta na Suíça. Movimentação contestada pela filha herdeira.
— Sumiram com uma pasta de documentos que ela carregava e que poderia ter números de senhas e de contas. A pasta poderia comprovar o que tinha, porque estava sendo processada pela filha do Lúcio e acusada de sumir com os cinco milhões de euros — contou Vilma Reis.
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A ligação entre advogado, que teria ido a Saquarema tratar de assuntos imobiliários, e Rosalina, que na véspera do encontro com Duarte esteve na festa dos 50 anos de carreira da fadista Maria Alcina, levanta dúvidas, segundo Reis.
— A Justiça nunca conseguiu provar que recebeu legalmente e ele nunca foi formalmente ouvido. Ele era mesmo advogado dela? Nem este documento temos — disse Reis.
Miguel Carvalho acrescentou que Lúcio e Rosalina confiavam em Duarte Lima:
— Deu sempre mostras de ser um protetor, e ela tinha confiança nele, uma das poucas que tinha, porque na família havia inimizade. Ele assumiu este papel de protetor, mas com o tempo (ela) deve ter percebido que a realidade era outra.
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Hoje com 70 anos, Duarte Lima ficou preso de 2019 a 2022 como parte da pena de seis anos por lavagem de dinheiro e burla qualificada.
— Virou alvo de investigações por suspeitas sobre seu patrimônio e negócios nebulosos. Foi investigado em processo bancário. É suspeito desde a década de 1990 por negócios que mancharam qualquer coisa boa que possa ter feito — declarou Carvalho.
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O currículo de Duarte Lima ofuscou Rosalina quando o caso veio à tona em Portugal, segundo o jornalista.
— Põe em questão a invisibilidade de uma mulher assassinada. Grande parte das histórias e reportagens foram mais centradas no Duarte e na fortuna dos Feteira do que na vítima. Ela atravessou a novela do crime em um papel secundário e é triste verificar isso — disse Carvalho.
Com a proximidade do julgamento e o lançamento do podcast, Vilma Reis espera mais visibilidade para a vítima e a resposta de quem matou Rosalina.
— Foi um crime contra uma idosa, sem defesa e à queima-roupa. Quando morre uma mulher, empurram com a barriga. Só por ser um suspeito poderoso? Amanhã pode ser qualquer uma de nós — afirmou Reis.
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