Um lugar-comum da história do século 20 sustenta que Hitler chegou ao poder pelo voto, favorecido pela crise de 1929 e pelo desemprego que ela provocou. A explicação tem a vantagem de absolver aqueles que de fato o nomearam chanceler e os que trabalharam pela sua nomeação.
É esse lugar-comum que Johann Chapoutot contesta em "Os Irresponsáveis: Quem Levou Hitler ao Poder?" , publicado pela Gallimard em 2025 e agora traduzido por Clóvis Marques para a Da Vinci Livros.
Professor de história contemporânea na Sorbonne e um dos mais destacados estudiosos do nazismo na França, Chapoutot reconstitui os três últimos anos da República de Weimar a partir das atas do conselho de ministros, das memórias dos protagonistas e do diário de Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha nazista.
O resultado permite acompanhar as decisões pelas quais uma democracia foi entregue aos seus inimigos por homens que se consideravam os mais habilitados a governá-la.
A tese vem anunciada desde a introdução. A nomeação de Hitler como chanceler , chefe do governo alemão, em janeiro de 1933, foi "uma escolha, um cálculo e uma aposta" das elites alemãs. Elas preferiram os nazistas à esquerda, viram nos 400 mil homens da SA (a organização paramilitar original do Partido Nazista na Alemanha, fundada em novembro de 1920) um contrapeso aos comunistas e acreditaram que políticos experientes conseguiriam domesticar o chefe nazista num governo de coalizão.
O movimento forneceria os votos e a força de rua que lhes faltavam, enquanto o exercício do poder permaneceria nas mãos de quem conhecia os negócios do Estado.
Chapoutot chama os responsáveis por essa operação de "liberais autoritários", expressão empregada pelo jurista socialista Hermann Heller, ou de "extremo centro", fórmula do historiador Pierre Serna. As duas designações, entretanto, não possuem o mesmo rendimento explicativo.
O enredo é conhecido, mas o autor o reconstitui com riqueza de pormenores. Em março de 1930, o presidente Paul von Hindenburg , velho marechal eleito com os votos da direita, nomeia chanceler o católico Heinrich Brüning e lhe assegura o recurso aos decretos de urgência previstos no artigo 48 da Constituição.
Destinada a enfrentar ameaças à ordem pública, a legislação de exceção torna-se rotina, e a República parlamentar converte-se em presidencial sem alteração do texto de 1919.
Daí por diante, o governo depende cada vez mais do presidente e de sua camarilha. Dela fazem parte o filho Oskar, oficial medíocre favorecido pelo pai, o secretário Otto Meissner e o general Kurt von Schleicher.
Brüning cai em maio de 1932, acusado pelos latifundiários de "bolchevismo agrário" por querer assentar desempregados nas propriedades falidas do Leste. Seu sucessor, Franz von Papen, aristocrata sem base partidária, forma o chamado "gabinete dos barões".