Em 1898, Zola publicou no jornal L’Aurore uma carta dirigida ao presidente francês para denunciar os erros e a perseguição antissemita que resultaram na condenação do capitão Alfred Dreyfus por traição. Desta vez, o "Eu acuso" não saiu em jornal —até porque a própria "grande mídia" integra a lista de acusados do economista. Foi na plataforma Substack que Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, elaborou seu libelo contra os "juros absurdos" no Brasil.
"Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater. Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica. E acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade."
Publicado em 25 de setembro, o texto só ganhou maior notoriedade assim que novembro começou. No último domingo (1º), o colunista do Globo Lauro Jardim afirmou que Lara Resende teria um "encontro marcado com Lula".
Naquele mesmo dia 1º, mais tarde, a Folha publicou a reportagem "Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado; Durigan nega discussão no governo". "Três integrantes da equipe econômica afirmaram que existe a tentativa de agendar uma reunião de Lula com economistas que possam trazer visões diferentes para a solução do problema fiscal, mas ainda não há previsão formal para esse encontro, muito menos uma agenda privada entre Lula e Lara Resende." Uma reunião coalhada de "heterodoxos", sem Lara Resende, de fato ocorreu na quinta (5).
O jornal tentou ouvir o economista, mas ele não respondeu. "Não quis [falar] exatamente porque a cobertura do jornal e de seus colunistas não foi séria", afirmou ele posteriormente, procurado pela ombudsman. Para Lara Resende, a Folha " julgou e condenou sem ler e sem entender".
Um dos pontos críticos era a afirmação de que a proposta previa "tabelamento de juros". A situação não melhorou quando a Folha apresentou com má vontade a reação de John Cochrane: "Economista americano citado por Lara Resende diz que brasileiro propõe uma teoria sem histórico". O texto reconhecia haver elogios "em vários momentos", incluindo um "logo na abertura" do material de Cochrane. No jornal, porém, eles ficavam apenas para o final.
"Ele [Cochrane] diz que o artigo é 'intrigante' e que, mesmo sem concordar com tudo, considera as ideias do brasileiro 'sofisticadas do ponto de vista econômico' e com 'um argumento coerente'. Ao tratar do risco de o corte de juros elevar a inflação no curto prazo, ele diz que Resende ‘resume bem’ o problema."
Lara Resende acabou respondendo parte das críticas e interpretações em entrevista à BBC Brasil, republicada pela Folha na noite da quinta (5). "É quase unânime que quem não gostou foi o sistema financeiro e seus representantes na grande mídia. Até onde eu sei, a grande maioria das outras pessoas gostou. Não quer dizer que elas não achem que não tem riscos, que ela deva ser implementada —eu acho que sim, mas eu também sou cauteloso. O Cochrane disse isso: que não conhece o Brasil, mas que a proposta é inteligente, apesar da cautela necessária."
Ele ainda negou encontro marcado com Lula. "Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso."
Em discussão recente no Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), Lara Resende detalhou que a proposta, seus números e detalhes ainda precisariam ser longamente discutidos inclusive com "o mercado". Também lembra a parte do Plano Real que jogou o juro brasileiro na Lua, recuperada na entrevista à BBC.
"Quando a URV passou para o Real e nós decidimos deixar a moeda flutuar [em relação ao dólar], a taxa básica de juros muito alta foi fundamental, perto de 50%, para ancorar a credibilidade da nova moeda. (...) Isso se consolidou uns dez anos depois, quando se estabeleceu o sistema de metas do Banco Central, inclusive. Naquele momento, a taxa básica de juros já deveria ter sido trazida para níveis razoáveis a nível internacional. Se não foi feito ali, está na hora de fazer esse ajuste agora."
No meio das reações negativas registradas no jornal, a economista Monica de Bolle tentou explicar que o plano estava "sendo mal interpretado tanto pelo mercado financeiro quanto pelo governo, e cada lado lê nele apenas o que lhe convém". "Isso serve tanto para a Faria Lima quanto para o governo, mas sobretudo para o povo do PT que não quer entender direito qual é a história."
A Folha poderia ter aproveitado a oportunidade para levar a discussão adiante e aprofundá-la em vez de contribuir para enterrá-la. Não seria tarefa fácil, menos ainda num contexto em que divergências e mágoas anteriores dificultam o diálogo e crispam seu tom. Mas a ideia, decerto complexa, foi proposta como um ponto de partida, não como pacote pronto. Que tenha sido tratada assim só empobrece a discussão —e, por tabela, o próprio jornal.
As muitas camadas da acusação a respeito dos juros
"Eu acuso." Foi citando Émile Zola que o economista André Lara Resende causou furor no mercado financeiro e na político brasileira na última semana.