Artistas falam em livro sobre o ciúme: prova de amor ou forma de destruí-lo?

[RESUMO] No recém-lançado "Os Ciúmes", as psicanalistas Renata Salgado e Maria Helena Carneiro da Cunha exploram, a partir de entrevistas com 12 personalidades, como o sentimento pode aprisionar as pessoas em fantasias distantes da realidade e minar relacionam

Por Admin ·

Artistas falam em livro sobre o ciúme: prova de amor ou forma de destruí-lo?

Encontro as psicanalistas Renata Salgado e Maria Helena Carneiro da Cunha na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio, cidade em que ambas moram. O dia é 5 de outubro, a segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando parecia que a guinada à direita do país era irreversível.

A conversa custa um pouco a entrar no tema do livro, como se, de uma hora para outra, falar sobre sentimentos, ou sobre o efeito colateral de um sentimento, como é o ciúme, fosse algo meio dispensável. Era como se estivéssemos trocando o prato principal pela sobremesa.

Mas quem em sã consciência não prefere, de vez em quando, comer um docinho antes de o jantar ser oficialmente servido? Estragar o apetite, arruinar uma refeição que se deveria fazer à mesa, usando os talheres como manda a etiqueta, de guardanapo de pano no colo e uma taça de vinho quase decorativa?

Falar sobre o ciúme é meio assim. Todo o mundo tem uma história —quase sempre vexatória e no passado— para contar. E o que eu queria saber logo de cara não estava no livro organizado pelas duas psicanalistas: ciúme tem cura?

A resposta não é propriamente animadora. O ciúme, explicam ambas, em frases que se complementam, "faz parte da constituição do sujeito". Aparece cedo, quando a criança descobre que não é a única destinatária do amor dos pais. Pode nascer com a chegada de um irmão e continuar se manifestando ao longo da vida.

"Ele existe, está lá. Mas tem graus, né?", diz Maria Helena. A idade e a análise podem amenizar o sofrimento, mas não eliminá-lo. "Acho que contra o ciúme cada um tem que achar um jeito de lidar", completa.

Outra inquietação que acompanhou toda a minha leitura do livro era se o ciúme é só um defeito de fábrica ou se tem, ou teve, alguma função na evolução humana. Será que os Homo sapiens venceram os neandertais porque eram mais ciumentos? Ou, para chegar mais perto dos tempos atuais, será que algum romance, namoro, casamento ou o arranjo que for já foi salvo pelo ciúme?

Na literatura , o sentimento aparece quase sempre como uma força destrutiva. O exemplo clássico, citado na abertura de "Os Ciúmes", é "Otelo", de Shakespeare, peça escrita por volta de 1603. Otelo sente um ciúme louco de sua mulher, Desdêmona, mas é levado a isso por Iago, seu subordinado, que o manipula movido por ressentimento e inveja. A história termina em tragédia.

Mais recente, porém não menos clássico, é "Dom Casmurro", romance publicado por Machado de Assis em 1899, no qual Bentinho narra sua história com Capitu, dominado por suspeitas de infidelidade que o leitor jamais consegue confirmar inteiramente.

Ciúme e inveja, aliás, são desses temas que reverberam ad infinitum. São gêmeos complementares, opostos, se alimentam um ao outro ou não têm parentesco?

Renata Salgado dá uma explicação inicial inesperada para uma psicanalista: "Inveja é um pecado capital. Ciúme, não". Na distinção que as duas desenvolvem, a inveja está ligada ao desejo de possuir aquilo que o outro tem. Já o ciúme envolve o medo de perder algo ou alguém que acreditamos ter. Na vida real, é claro, os dois sentimentos podem se misturar. Basta pensar em Iago e Otelo. Não que eles sejam reais, mas você entende o que eu quero dizer.

As psicanalistas observam que a inveja pode até ser aceita socialmente, sobretudo quando recebe o adjetivo politicamente incorreto "branca". Ciúme é motivo de constrangimento.

"Todo o mundo tem vergonha de sentir ciúmes, porque ele mexe com a autoestima", diz Renata. "Ele te diminui, né?" Maria Helena vai mais longe: "É uma degradação. Você está na mão do outro ali como se fosse um objeto mesmo".

Em vez de escrever mais um tratado sobre o assunto, Renata e Maria Helena resolveram ouvir pessoas dispostas a correr o risco de falar de si mesmas. O resultado é " Os Ciúmes ", publicado pela Imprimatur/7Letras, um volume de 176 páginas que reúne 12 conversas realizadas ao longo de um projeto que levou nove anos para ficar pronto.

As duas se conhecem há muito tempo e já haviam trabalhado juntas numa consultoria para uma produção audiovisual. A literatura teve um papel importante na preparação das conversas. Antes de encontrar Silviano Santiago, por exemplo, mergulharam em seus livros. Mas não chegaram com um questionário rígido.

"A gente conversou", diz Renata, explicando que preferiram não conduzir os encontros como entrevistas convencionais. "Acho que a grande diferença é a escuta", explica Maria Helena. "Deixar falar, fazer algumas intervenções para deixar que aquilo ali crie um sentido, um encadeamento, uma associação de ideias", completa.

Nas entrevistas do livro, adotam a postura de psicanalistas que são. Fazem quase nenhuma interrupção no fluxo de pensamento dos convidados, deixando as respostas longas ou curtas dependerem do que cada pessoa tinha a dizer.

E aí cada um revela o que quiser, ou o que não conseguir esconder. Cada entrevistado que lide com o incômodo do seu silêncio.

A atriz Fernanda Torres , por exemplo, lembra um episódio formador nos primeiros anos de escola, quando foi trocada por uma amiga muito popular, que preferiu a companhia de outra menina. Corroída de ciúme, descobriu cedo que teria de aprender a conviver com aquele traço de sua personalidade.

O diretor de teatro Felipe Hirsch atualiza o sentimento ao contar que sente ciúme quando sua mulher se distrai com o celular, mesmo estando ele ali, presente, disponível (ou não). Não é lá muito elegante, mas vale um ponto pela sinceridade.