Artista Lucas Simões vê arquitetura como carne e ataca orgulho do macho

Um painel de acrílico atravessa a galeria, um divisor entre as obras. Essa espécie de outdoor transparente vez ou outra se enche de vapor branco e esconde os trabalhos do outro lado, uma literal cortina de fumaça. É do poder de ludibriar da

Por Admin ·

Artista Lucas Simões vê arquitetura como carne e ataca orgulho do macho

Seu grande dispositivo de mostrar e esconder corta como lâmina o espaço e leva o olhar para uma obra no canto da sala, uma repetição de formas geométricas moldadas em concreto bruto sobre chapas de aço cru. Lembram línguas ou barrigas, volumes de carne que desafiam o contorno duro das linhas curvas que parecem tentar conter o avanço dessa vida que se agita e não cabe nos moldes.

Não é acidental a forma desses módulos transbordantes. O artista partiu de uma antiga imagem do Palácio da Alvorada, em Brasília . Num processo de depuração de seus traços, chegou ao esqueleto da estrutura da famosa varanda desenhada por Oscar Niemeyer e seus pilares delicados, talvez fracos demais para conter o peso da história, ou a pulsão de vida e morte, que tentam abraçar. Tudo é preto e cinza.

Simões faz aqui um movimento de reconhecimento do terreno e decreta a morte do símbolo capital do futuro da nação. A decisão de cortar ao meio a sala, determinando os passos e o movimento do olhar de seu público, evoca a violência primeira de fazer na terra o sinal da cruz, a linha que define os cheios e vazios do território, o tal ato deliberado de tomada de posse de que falava Lucio Costa ao traçar o plano piloto no planalto central do país . O fato de sua barreira apontar para a visão de um Alvorada em ruínas atesta que fracassamos como nação, ou ao menos deixa ver sem rodeios a fragilidade de nossos signos de arrojo plantados na vastidão do cerrado.

Essa investigação da carne da arquitetura, por outro lado, não está restrita aos terremotos brasileiros. O artista, que é também arquiteto e designer, enxerga nas construções a dimensão do incontrolável, como espasmos musculares, rugas na pele, coágulos que desafiam a plasticidade imaginada pelo traço. É como se nos quisesse mostrar que o desenho também é vivo —e, mais importante, que a falha e a ruína não são defeitos ou desvios de rota. A musculatura dos prédios também se dá à erosão, e a crise da matéria aproxima os homens das cascas que erguem para se proteger da violência da natureza ou se exibir em rompantes narcisistas —a torre mais alta, o vão mais extenso, a ilusão de leveza cristalina numa estrutura de toneladas.

Ver as novas esculturas de Simões, nesta que é talvez a sua mostra mais potente em duas décadas de estrada, é dissecar estranhas composições de metal e concreto sempre em enorme tensão. Em geral, uma pele de aço tenta manter no lugar o concreto bruto que vaza pelas frestas como vísceras vivas, ou mesmo línguas, barrigas, testículos, pênis. O artista, espécie de cirurgião arquiteto, sublima tudo isso em superfícies que podem parecer industriais, neutras, forjadas na frieza das máquinas. E, no entanto, tudo parece se mover.