Artefatos arqueológicos são encontrados sob asfalto em área de antigo cemitério da Liberdade, em SP

Artefatos arqueológicos potencialmente ligados ao passado da população negra de São Paulo foram encontrados durante obras da prefeitura no bairro da Liberdade , no centro paulistano. As principais descobertas são fragmento de um osso human

Por Admin ·

Artefatos arqueológicos são encontrados sob asfalto em área de antigo cemitério da Liberdade, em SP

Artefatos arqueológicos potencialmente ligados ao passado da população negra de São Paulo foram encontrados durante obras da prefeitura no bairro da Liberdade , no centro paulistano.

As principais descobertas são fragmento de um osso humano e um local com concentração de pedaços de cerâmica, vidro e osso bovino —o que indica possível associação com práticas religiosas de matriz afro-brasileira, segundo a empresa A Lasca, contratada para o acompanhamento especializado.

A identificação ocorreu durante as obras da segunda fase do programa Ruas Abertas, voltado a ampliar os espaços de pedestres em algumas das vias mais movimentadas do bairro, lotado por milhares de visitantes nos fins de semana. As peças estavam sob camadas de asfalto e paralelepípedo.

Os itens estavam a cerca de 30 centímetros abaixo do nível do solo, profundidade semelhante àquela em que foram encontrados vestígios de sepultamentos no entorno da Capela dos Aflitos em 2018.

O principal achado estava no perímetro do sítio arqueológico do antigo Cemitério dos Aflitos. Nele, foi sepultada parte da população negra, indígena, indigente e pobre da cidade entre 1775 e 1858.

Com a identificação, trechos da obra foram paralisados temporariamente. Esse é um dos motivos apontados pela prefeitura para o atraso na entrega, primeiramente estimada para o fim de 2025, além de divergências de informações sobre o sistema de gás.

Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) respondeu que busca minimizar impactos da obra, com sinalizações e desvios. Também destacou a conclusão do trecho da rua Américo de Campos e da praça da Liberdade e a continuidade dos trabalhos nas demais vias, exceto na rua dos Estudantes (onde estão paralisados).

Além disso, a prefeitura indicou que o monitoramento arqueológico da obra contará com especialista em bioarqueologia e diáspora africana, com a participação de pessoas negras e indígenas.

Igualmente em nota, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) disse que paralisações pontuais acontecem quando são identificados vestígios arqueológicos. Esses itens são coletados e encaminhados para análise.

O principal achado foi em junho, quando a equipe de monitoramento arqueológico acompanhava a abertura de vala na rua dos Estudantes, perto da esquina com a rua Galvão Bueno.

A cerca de 35 centímetros debaixo da terra, estava uma concentração de fragmentos de louça, vidro e osso bovino. As peças foram registradas e removidas, exceto a parte óssea, que exigirá escavação mais minuciosa.

O local foi coberto com lona plástica, areia, tapume de madeira e restos de materiais de construção. Além disso, houve isolamento com tela.

Outro caso ocorreu em 5 de outubro, com a identificação de fragmento de osso humano na rua Thomaz Gonzaga, perto da esquina com a rua Galvão Bueno. Parecer técnico de especialista em bioarqueologia apontou que se trata possivelmente do pedaço de um fêmur —registrado e removido para análise.

Com a identificação dos artefatos, a associação Museu dos Aflitos enviou nota técnica ao Iphan em setembro, com a defesa de novas medidas, como a ampliação do perímetro do sítio arqueológico e medidas para evitar intervenções de menor porte (como de empresas de telecomunicação) sem acompanhamento especializado.

Para a organização, as novas descobertas evidenciam que o subsolo da área preserva depósitos arqueológicos de elevada relevância científica e cultural.

O monitoramento arqueológico começou no fim de maio, após início da obra em 2025. A necessidade de acompanhamento havia sido indicada pelo Iphan em fevereiro daquele ano, com envio do projeto de monitoramento pelo escritório contratado em novembro.

O programa Ruas Abertas engloba intervenções em cerca de 14 mil m² de vias movimentadas do bairro, onde há grande concentração de comércios e restaurantes, além da praça da Liberdade. O contrato é de R$ 5 milhões.

A atual fase é voltada a transformar parte das vias em "ruas compartilhadas", com o alargamento de calçadas, a redução de espaços para carros (para estacionamento e faixas de rolamento), o nivelamento da via com o passeio e a troca de asfalto por pavimento em bloco intertravado, entre outras mudanças. Novo prazo de entrega não foi informado pela prefeitura.

A primeira etapa do programa foi implantada em 2023, com a restrição do tráfego de automóveis em parte das vias aos domingos e feriados, a exemplo do que ocorre na avenida Paulista há mais de uma década.

Os achados mais recentes ocorrem em contexto de mobilização crescente pelo resgate e pela valorização da história multiétnica do bairro, desde a presença negra e indígena até a chegada de imigrantes europeus (como portugueses, italianos, eslavos e espanhóis) e asiáticos (principalmente japoneses).

Além da Liberdade, outros sítios arqueológicos do centro também trazem possíveis remanescentes da memória negra de São Paulo. Recentemente, novos achados ligados a possível local de culto afro foram encontrados em meio às obras da estação 14 Bis-Saracura, da linha 6-laranja, de metrô.