Após trabalhar como coveiro, filósofo lança livro com memórias:

25/10/2026 04h30 Atualizado 25/10/2026 04h30 "Faço mais de um sepultamento ao dia e nenhum é semelhante ao outro.” A frase escrita por Osmair Camargo Cândido anuncia o que está por vir no livro “Memórias de um coveiro”. Embora tenha trabal

Por Admin ·

Após trabalhar como coveiro, filósofo lança livro com memórias:

25/10/2026 04h30 Atualizado 25/10/2026 04h30

"Faço mais de um sepultamento ao dia e nenhum é semelhante ao outro.” A frase escrita por Osmair Camargo Cândido anuncia o que está por vir no livro “Memórias de um coveiro”. Embora tenha trabalhado por décadas no Cemitério do Araçá e em outras necrópoles paulistanas com a profissão que aparece no título da obra, o filósofo, de “sessenta e poucos” anos (ele prefere não falar a idade), jamais viu a finitude como algo banal. Desde 1997, vinha tomando notas de reflexões e histórias vivenciadas em meio ao trabalho e que agora ganham as páginas da publicação com lançamento no dia 23 de novembro, pela Fósforo. “Se quer conhecer uma civilização, veja o tratamento dado aos mortos. O pai do cemitério é a sociedade”, afirma, em entrevista. “Já parou para pensar que grandes obras como o Taj Mahal e as pirâmides são túmulos?”

Entrevista: Ronaldo Fraga fala sobre a chegada aos 60 anos Arte: Rafael Pavarotti ganha individual no Museu de Artes Decorativas, em Paris Angela Davis fala sobre ameaças aos direitos das mulheres: 'Nossa luta continua viva'

Mais do que histórias curiosas sobre a rotina de um lugar onde quase ninguém quer estar, Osmair, ou Fininho, como é conhecido, convida o leitor a elaborações sobre a existência humana e questões que a atravessam, entre classe, avareza e solidão.

Nascido no Méier, na Zona Norte do Rio, mudou-se para a capital paulista ainda criança e foi criado em Penha de França, na Zona Leste, onde mora. Começou a lidar com corpos ao trabalhar na exumação de cadáveres para exames no Instituto Médico Legal, na década de 1990. Antes disso, nutria interesse pela filosofia desde pequeno, quando deparou com um texto de Isaac Newton na escola. “Todo dia leio um textinho de Jean-Paul Sartre”, diz ele, graduado em 2007 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Cada pensamento é um tijolinho. Sem raciocínio lógico, não se enxerga nada, e o Brasil é especialista em cair no vazio.”

No livro, Osmair junta tudo o que aprendeu ao se debruçar sobre a obra de pensadores como Platão e Friedrich Nietzsche (este seu favorito e apreciado no idioma original, o alemão) com o que testemunhou nos cemitérios até se aposentar, em 2023. Estão lá as brigas de família, o comportamento inusitado de uma musa da TV sobre um caixão e o casal sepultado lado a lado, mesmo depois de o parceiro ter assassinado a namorada. “A morte é caprichosa. Exige respeito, silêncio e atenção”, afirma o autor. “Ela convive conosco, mas a desprezamos. Por outro lado, é pulsão de vida porque marca a impermanência do homem. Caso contrário, seríamos eternamente velhos. Não haveria nada a ser renovado.”

Exclusivo: A nnie Ernaux abre sua casa, fala de feminismo, da influência da mãe e por que não quer mais dar entrevistas As mudanças de Socorro Acioli: Cirurgia bariátrica, apê no Copan e casamento em cenário de best-seller

Amiga do filósofo, a documentarista Camila Appel assina a orelha do livro e prepara um documentário sobre Osmair, ainda sem previsão de lançamento. “O Fininho sempre me pareceu um bom contador de histórias, e acho lindo quando diz compreender a morte como um ponto no tempo”, ela comenta. “É bonita a reflexão sobre o que acontece antes e depois para quem fica.”

Segundo Camila, além da abordagem sensível sobre o tema, o livro chama atenção para um ofício que, embora extremamente importante, segue invisibilizado. “É um chamado para olharmos para este setor que sequer está regulamentado. Afinal, são pessoas com as quais lidamos em momentos de muita vulnerabilidade.”

Nas 208 páginas da obra, são constantes as menções a aspectos como a fome sentida pelo autor, a solidão e as precárias condições de trabalho. Ao descer até o fundo das covas para posicionar os caixões, Osmair precisava enfrentar cheiros nauseantes, além de insetos e animais peçonhentos, como escorpiões, cobras e lacraias. Muitas vezes, terminava ferido ou escapava, por pouco, de acidentes graves, enquanto executava as tarefas sem a proteção adequada. “A visão ‘de baixo’ me permitiu sentir odores, como de suor e dejetos”, comenta. “Tudo o que a superioridade humana considera asqueroso, mas é natural.”

Literatura: Natalia Timerman mergulha nas relações familiares em livro sobre mãe com Alzheimer Roberta Miranda fala sobre amores e libido: 'Sou sexual até o fio do cabelo'

Os desafios ficaram ainda maiores durante a pandemia de Covid, quando Osmair chegou a enterrar dezenas de corpos em um único dia. Um período tão traumático, que ele optou por deixar de fora deste livro e abordá-lo em um volume exclusivo. “Morreu muita gente rica, mas a maioria era de pessoas pobres, gente que precisava trabalhar na rua”, recorda-se. “Quanto à minha atuação, havia um desprezo tremendo. Ganhava menos do que um salário mínimo àquela altura e trabalhei, durante meses, sem equipamentos de proteção. Faltou água no cemitério, não havia banheiro e marcavam enterros à noite, o que é perigosíssimo ( por causa dos bichos e da falta de visibilidade ).”

Autora de “A morte é um dia que vale a pena viver” (ed. Sextante), a geriatra Ana Claudia Quintana Arantes afirma que a obra de Osmair traz à tona temas ainda negligenciados. “Ele foi testemunha de muita gente abandonada, mas não se esqueceu. Estava presente quando ninguém mais queria estar”, comenta. “Há uma certa luz na morte que revela as piores sombras das pessoas. E quem está por perto, como o coveiro, enxerga facilmente a transparência humana em seu medo, desprezo e angústia.”

Admirador da obra de Caetano Veloso, o filósofo pega emprestado o verso “tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”, da música “O estrangeiro”, para descrever o que testemunhava em seu cotidiano. “À beira da sepultura, você vê as máscaras caindo porque a pessoa não consegue raciocinar. Ela apenas sente. Sente a ausência, a perda da companhia. Perdeu o testemunho da própria vida”, comenta. “Um pacifista vira agressor. Um transgressor torna-se pontífice. E muito do que vi se tratou de puro egoísmo e egocentrismo. A maioria das pessoas vai até o cemitério para chorar a própria solidão.”

Mas, se havia a mulher que ia aos velórios em busca de um bom partido e a mesquinharia das disputas familiares, existia também, ainda que vez ou outra, a gratidão. Um desses casos, ele conta, deu-se no enterro de um rapaz acompanhado por muitas pessoas LGBTQIAPN+. Diante do público, alguns funcionários do cemitério se negaram a cuidar do sepultamento. Osmair, então, assumiu a tarefa. Naquele dia, ouviu da mãe do jovem que, “até na morte, meu filho teve a sorte de encontrar uma amizade digna”. “Foi o enterro em que mais me emocionei”, recorda-se.

Esta também não é uma história contada no livro, assim como tantas outras que fervilham na cabeça do filósofo, já planejando outras maneiras de escoá-las. Entre os próximos projetos, quer transformar uma crônica em peça teatral. “Ainda vou encontrar o protagonista, mas acho que o vejo todos os dias diante do espelho”, diverte-se, sem pressa ou preocupação quanto ao tempo que lhe resta. “Não tenho medo da morte. Tenho preguiça. Vou deixando todos passarem na minha frente.”

Líder opositora do regime chavista, que estava no exterior por quase um ano, havia feito ao menos sete tentativas de retornar ao país

Nikolas Miguel explica inspirações do figurino usado por influenciadora digital no aniversário de 4 anos de Maria Flor: 'Moda é subjetiva'

A justificativa pode ser feita por meio do e-Título e pelo site do TSE; voto é obrigatório no Brasil para os cidadãos entre 18 e 70 anos

Encontros serão realizados às quartas-feiras, na residência do ex-presidente, com a participação de 13 pessoas

Time do ex-Botafogo saiu na frente com gol de irmão de Mbappé, mas equipe do ex-Fla buscou ponto após ficar com vantagem numérica

Os dois foram recebidos pelo presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques

Governador de São Paulo desconversou ao ser questionado se ocuparia algum cargo em eventual governo do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL)

Uma infestação de pulgas provocou a transferência de dez seções eleitorais e alterou o local de votação de no Jardim Sulacap, na Zona Oeste do Rio

Um deles é acusado de tentar matar a ex-comapnheira com golpes de tesoura, em São Gonçalo; o outro é apontado como envolvido na morte de um policial militar em Resende

Mais de 158 milhões de eleitores brasileiros devem votar até às 17h

Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.