Após mais de três décadas, Érik Comas se permite sorrir ao falar de Ayrton Senna

Há 34 anos, em agosto de 1992, já consagrado como tricampeão mundial de Fórmula 1 , Ayrton Senna participava dos treinos livres para o GP da Bélgica quando o francês Érik Comas sofreu um grave acidente no circuito de Spa-Francorchamps.

Por Admin ·

Após mais de três décadas, Érik Comas se permite sorrir ao falar de Ayrton Senna

O brasileiro não hesitou em saltar de sua McLaren para correr em direção a Comas, que estava desacordado a bordo de uma Ligier atravessada no meio da pista. Senna desligou o motor do monoposto, que continuava em aceleração, ainda cheio de combustível. Em seguida, ajoelhou-se ao lado do cockpit e sustentou a cabeça do francês, mantendo-a na posição adequada até a chegada da equipe de resgate.

Passadas mais de três décadas do episódio, Comas fala com bastante emoção e carinho ao recordar o gesto daquele que já era seu grande ídolo no automobilismo . Ele já foi atoardado pelas memórias, sobretudo após a morte de Senna , porém hoje consegue sorrir ao tratar do tema.

"Para minha sorte, Ayrton parou. Perdi a consciência quando a roda dianteira se soltou e atingiu minha cabeça", afirmou Comas à Folha .

"Uma coisa é certa: se ele não tivesse parado —e foi ele quem parou—, provavelmente não teria sobrevivido. Levaria mais uns dois minutos para os fiscais chegarem. Eles só se aproximavam quando todos os outros já estavam nos boxes. Então, o fato de ele ter parado foi realmente decisivo. Na época, os carros levavam muito combustível, 180 litros, e os tubos de água e óleo já estavam rompidos. Até o carro pegar fogo ou explodir, faltava muito pouco…", acrescentou o francês de 63 anos.

Comas afirmou que sua admiração pelo piloto brasileiro havia começado oito anos antes, quando esteve em Monte Carlo e acompanhou uma das grandes apresentações de Senna na chuva, no GP de Mônaco —largou em 13º, com a Toleman, e terminou em segundo.

Depois, em 1990, quando o piloto francês se sagrou campeão mundial de Fórmula 3000 e Senna foi bicampeão de Fórmula 1, o brasileiro foi o único piloto da principal categoria a parabenizá-lo por sua conquista.

"O piloto que eu tinha visto correr seis anos antes em Monte Carlo, e que desde aquele dia era meu herói, meu ídolo, veio dizer que admirava o trabalho e o desempenho que eu havia apresentado na Fórmula 3000. Para mim, foi uma conversa curta, mas muito emocionante."

Comas acrescentou que a reverência que tinha por Senna o impediu de buscar uma relação de maior proximidade.

"Ele era meu ídolo, e eu sentia tanta admiração e respeito que isso me fez estabelecer certos limites que jamais ultrapassaria. Nunca o incomodaria por pouca coisa. Ele nunca tinha tempo, porque era muito procurado pela imprensa, pela equipe, pelos fotógrafos e pelos fãs. Jamais acrescentaria mais uma fonte de estresse", afirmou.

Segundo ele, um encontro estava marcado para Londres , em 1994, logo após o GP de San Marino, em Ímola —aquele em que Ayrton Senna sofreu o acidente fatal, em 1º de maio .

"Seria a única vez em que nos encontraríamos fora de um autódromo, mas isso nunca aconteceu", recordou Comas. O tópico da conversa seria o risco crescente corrido pelos pilotos e a necessidade de carros mais seguros.

Comas também participou do GP na Itália em 1994, a bordo da Larrousse, e chegou a parar o carro próximo ao acidente na curva Tamburello, na tentativa de ajudar no socorro, mas foi impedido pelos fiscais de aproximar-se.

"Eu estava lá e não fui capaz de salvá-lo. Foi algo muito doloroso de assimilar. Nunca consegui aceitar. Muitas vezes me perguntei por que o destino me colocou ali para ver morrer o homem que eu mais amava, aquele que salvou minha vida. Era uma pergunta permanente em minha mente, que tentava responder", disse.

Aquele foi o fim de semana mais trágico da história da Fórmula 1. Rubens Barrichello já havia sofrido um acidente impressionante nos treinos de sexta-feira, do qual escapou com apenas uma fratura no nariz. No sábado, o austríaco Roland Ratzenberger morreu durante o treino classificatório.

O francês afirmou que, naquele dia, decidiu que não seguiria na categoria ao fim da temporada. Ele entendeu que o risco a que estava exposto, ainda mais dirigindo carros pouco competitivos, deixou de fazer sentido.

Em 1995, em busca de novos ares, mudou-se para o Japão , onde permaneceu por mais de uma década e foi bicampeão da competição de carros de turismo GT500.