Quando Solange Mendes Souza era adolescente, sonhava em sair pelo mundo ao lado do irmão. O plano era frequente na época, os animados anos 1970: entrar na faculdade, trancar matrícula e sair por aí mochilando antes de aderir à chamada vida adulta. Mas um acidente que matou seu pai e o irmão suspendeu a programação, trocada pelo primeiro de seus quatro casamentos, o curso de direito, e a carreira bem-sucedida no Ministério Público Federal. Só aos 64 anos, aposentada, retomou o antigo sonho. Nascia assim o projeto do Piano Nômade.
A mochila e a possibilidade de viajar fazendo trabalho voluntário não faziam mais sentido àquela altura da vida; hotel em todo lugar que pretendia conhecer não caberia no orçamento; a opção natural, assim, foi adaptar um motorhome para seguir os caminhos sonhados.
Mas havia mais um sonho que havia sido postergado: ela queria tocar piano. Esse desejo havia sido interrompido quando, criança, a professora que deveria ensinar-lhe bateu em sua mão. Assustada, nunca mais voltou. Quando estava no terceiro casamento, ganhou do marido um piano —só não tinha tempo para praticar. Na pandemia, retomou o gosto com aulas online. A partir daí, a decisão estava tomada: não só sairia pelo mundo em um motorhome, como levaria o instrumento junto. E seria um piano digital Roland. "Não é igual a um piano acústico, mas dá para o gasto", diz Solange em uma brecha de suas correrias sobre rodas.
O motorhome ficou pronto em novembro de 2024 e Solange começou a testar a empreitada com viagens curtas pelo sul, a partir de Porto Alegre, onde tem sua, digamos, residência fixa. "O teste era importante porque um motorhome é sempre artesanal, um veículo de 4 toneladas não é como dirigir um carro normal, nem um SUV, é outra exigência", explica.
As primeiras viagens eram de final de semana, no máximo 15 dias, até que resolveu encarar um mês no Uruguai. Depois, três meses pela Argentina. Contrariando os conselhos de quem invocava prudência, resolveu voltar ao Brasil pelo Paraguai. "A fronteira, ali, era caótica, um astral não muito bom", lembra. "As pessoas se aproximavam, você não sabia se eram funcionários da fronteira ou não, ofereciam câmbio irregular à luz do dia, na cara dos policiais, horas esperando e tive que dormir numa área próxima da fronteira, algo que evito porque costuma ser problemática em termos de segurança", acrescenta.
Para alívio das filhas e amigos que a seguem pelo grupo "Onde estou", do WhatsApp, ela conta que apesar dos preconceitos brasileiros, "a estrada no Paraguai era coisa de primeiro mundo, uma boa surpresa". Mas o sossego duraria pouco porque, daí a uns meses, resolveu seguir para Ushuaia, na Patagônia argentina. Foi, chegou e, não contente, resolveu enfrentar o perigoso estreito de Drake, em um veleiro, rumo a Puerto Williams, já na Patagônia chilena, e de lá dar um pulo na Antártica.
Essa viagem coincidia com o aniversário de uma netinha, o que a fez duvidar se seria boa ideia estar ausente, afinal ela faz questão de participar das efemérides familiares. O argumento definitivo que a fez pegar a estrada foi que, afinal, "quantas coleguinhas dela poderiam dizer 'minha avó está na Antártica?''"
Entre os perrengues que enfrentou, Solange destaca a viagem que fez até o Chile, que a acabou levando a uma rota mais longa por cortesia do fenômeno climático El Niño. "Eu estava no norte do Chile pensando em ir até o Peru para, de Lima, voltar para passar aniversário dos netos no Brasil em agosto", diz. Só que, mesmo com passagem comprada, ela nunca chegou ao Brasil. "Saí do acampamento onde estava com inundações atrás de mim, estradas interrompidas e passei dois meses correndo à frente das tempestades, subindo pela América do Sul".
Empurrada pelo temperamental moleque climático, Solange acabou entrando no Brasil pelo Acre, de onde desceu até Porto Alegre, um percurso onde dificilmente se encontram motorhomes, mais frequentes no sul do país. Da capital gaúcha, conversou com a coluna, brincando com quem vive dizendo que é maluca.
"Antes de eu sair, um amigo falou que eu era louca, que isso é muito perigoso", afirma, "mas eu sempre digo que perigoso é ficar no sofá, morre muito mais gente sentada no sofá".
À pergunta sobre o investimento que exigem suas rodagens, Solange responde que, embora não goste de falar de valores, calcula que o custo de sua vida nômade represene entre 50% e 70% do que seria sua "vida fixa". E nem com os gastos com aviões para as datas familiares e a manutenção da residência gaúcha fechada a conta chega aos 100%.
Do ameaçador sofá, ela, aos 67 anos, também fala de seus planos para os próximos meses. Neles, um novo motorhome, mais potente, e uma empreitada desafiadora: levar um piano acústico América do Norte adentro, do México até o Alasca. Não pretende fazer o percurso todo por estrada, pulando por cima da América Central, porque, fazendo as contas, os gastos com esse trecho seriam mais altos que o de embarcar o motorhome diretamente para o outro hemisfério. Ela quer ficar rodando por lá algo entre 3 e 4 anos.
"Quero alternar mato e cidade, pelo menos duas vezes por semana fazer academia em alguma cidade maior ou menor e fazer musculação, que é necessária na nossa idade", aponta. E deixa a pergunta no ar: "Não é legal?"