"As intenções de Alfred Nobel eram nobres. Mas tudo o que vem depois —as montanhas de mensagens, os pedidos intermináveis— é um fardo", afirma a autora de "Os Anos".
Aos 86 anos, a francesa falou na entrevita sobre protestos em seu país, o movimento MeToo e seu próximo livro —que escreve como se fosse o último e promete ser "politicamente incorreto".
"Quando se escreve, não está escrevendo apenas para a época atual. Não se deve deixar limitar pela ideia de que aquele não é o tema certo para agora."
Ser "incorreta" é algo a que Ernaux já está acostumada. Sua literatura sempre causou polêmica desde a classificação entre a autoficção e a autosociobiografia até os temas que aborda.
"Acredito que tudo precisa ser oferecido de alguma forma, absolutamente tudo. Meus livros são todos testemunhos."
Foi com essa perspectiva que relatou, em "Memória de Menina" , o estupro que sofreu aos 18 anos. "Escrevi o livro antes do movimento MeToo. Entre os muitos motivos que me impediram de escrevê-lo por tanto tempo estava o medo de como contar essa história sem ser estigmatizada pelos leitores, especificamente pela ideia de que ‘ela pediu por isso’."
A autora conta que se culpou por muito tempo pelo que lhe aconteceu. Ernaux declarou ainda sua admiração por Gisèle Pelicot . "É extremamente importante que essas questões ganhem visibilidade, no melhor sentido da palavra, para que, quando uma mulher for agredida por um homem, ela saiba que não está sozinha e que pode se manifestar."