Dez pessoas participam da reunião. Demorou semanas para que as dez pessoas pudessem estar presencialmente juntas em um mesmo dia e em um mesmo horário. Café? Água gelada, em temperatura ambiente ou mista? Liga o ar-condicionado? Vai precisar de Canva ou Google Slides? Estamos aqui reunidos para sugerir que você entreviste o "outro lado". Pedem isso em nome de um programa mais "complexo e dinâmico". Jesus Maria José me segura me abana me ilumina me ajuda a seguir empregada apesar da face de repulsa nauseante que estou fazendo agora e tudo sem vírgula. Me indica um único bolsonarista que valha a pena entrevistar? Silêncio absoluto. Somos dez jovens adultos meio idosos completamente calados por infinitos segundos. Topam que eu siga trabalhando do meu jeito.
A amiguinha da minha filha tem "angústia de unha". A mãe me pede recomendação de neuropediatra . A menina é uma Zezinha do Caixão. Seu rosto tem pequenos arranhões causados pelas unhas gigantescas e meio amareladas. Cada vez que tenta cortar a unha da menina, a mãe envelhece dez anos. A garotinha chora, berra, tem crises nervosas, taca brinquedos nas pessoas, faz a mala para fugir de casa. Coloca band-aid em todos os dedos quando as unhas são cortadas. Tem aflição das lascas de unha caídas no chão. Tem aflição da unha que sobra no dedo depois da poda. A mãe me pede recomendação de neuropsicopediatra com foco em "angústia de unha". A menina vem dormir aqui em casa. Quando ela pega no sono, corto suas unhas. Pela manhã a criança está tranquila e pede panquecas de aveia com banana.
Minha filha está aprendendo a fazer conta de divisão com um método completamente diferente do meu. Sempre que ofereço ajuda na lição de casa, ela fica indignada e diz que aprendi de um jeito estranho porque sou velha. Então vou até a escola falar para a professora que minha filha precisa aprender a fazer a conta de divisão direito para não ter de contar com a minha ajuda na lição de casa, já que aprendi a fazer conta de divisão com um método diferente do que ela está aprendendo e, portanto, posso atrapalhá-la. A professora da minha filha me ensina a fazer a conta de divisão com o método que minha filha aprendeu, e isso leva dois segundos. Já posso ajudar minha filha na lição de casa.
Minha tia de 85 anos diz que quer morrer. Não aguenta mais dar trabalho para os filhos. Eu respondo que não é simples, pois seus exames de sangue estão ótimos. Seu médico garantiu que ela só morre se quebrar o quadril. Pergunto se ela quer quebrar o quadril, e ela pondera que por enquanto não. Este ano prefere não quebrar o quadril. Ela decide então comprar tinta para o cabelo.