Em Cleveland, a torcida chegou a usar perucas para se parecer com um brasileiro. Os cabelos de Anderson Varejão, reconhecíveis à distância, saíram da quadra e foram parar nas arquibancadas em noites de homenagem organizadas pelos Cavaliers. A “Wig Night”, ou Noite das Perucas, fazia do penteado uma celebração coletiva. O jogador que havia passado pela base de Franca se tornara alguém que uma cidade norte-americana queria imitar.
As homenagens, realizadas desde 2006 e registradas pela imprensa da época, ajudam a compreender uma carreira que os números, sozinhos, não explicam. Varejão conquistou espaço pelo rebote disputado, pela defesa, pela movimentação e por uma energia que fazia o torcedor reconhecê-lo em cada posse de bola. A cabeleira era sua marca mais visível; havia muito trabalho por trás dela.
Para Franca, essa história começa antes de LeBron James, dos ginásios da NBA e das fotografias com celebridades. Começa com uma família capixaba, um irmão mais velho que já conhecia o caminho e um adolescente que encontrou no interior paulista condições para crescer no basquete. Nascido no Espírito Santo, Varejão incorporou Franca à própria formação. A cidade, por sua vez, passou a acompanhar um de seus jogadores pelo mundo.
Dois irmãos, um caminho e camisas diferentes
Anderson França Varejão nasceu em Colatina, em 28 de setembro de 1982. O basquete fazia parte da vida familiar, e Sandro, o irmão mais velho, foi uma influência importante. Antes de chegar a Franca, Anderson passou pelo Saldanha da Gama, em Vitória. A mudança para as categorias de base francanas ocorreu em 1998, segundo a biografia mantida pelo instituto que leva seu nome.
A fotografia dos irmãos enviada ao acervo do Amo Franca registra uma passagem dessa história sem precisar de pose grandiosa: Sandro com a camisa do Vasco, Anderson com o uniforme do Franca e uma bola entre eles. O mais novo ainda não tinha a imagem que se tornaria conhecida em Cleveland. A família já estava ali, atravessando a fronteira entre companheirismo e adversários de quadra.
Sandro também pertence à memória esportiva francana. Na fotografia coletiva do Marathon/Franca identificada pelo acervo como da equipe campeã brasileira de 1999, ele aparece entre jogadores como Chuí, Helinho e Valtinho. É uma imagem do ambiente de tradição e competição em que a trajetória do irmão mais novo começava a encontrar espaço. Anderson não está identificado nesse retrato coletivo; seu lugar na narrativa é o da geração que se formava em uma cidade acostumada a produzir equipes vencedoras.

Os irmãos: Sandro, à esquerda, pelo Vasco, e Anderson pelo Franca.

Marathon/Franca, identificado no acervo como a equipe campeã brasileira de 1999. Em pé, da esquerda: Sérgio Aleixo (mordomo), pessoa ainda não identificada, Daniel Wattfy (auxiliar técnico), Edu Mineiro, Sandro Varejão, Rodrigo Bahia, Rogério Fernandes e Márcio Dornelles. Agachados: Dexter Shouse, Chuí, Helinho, Guilherme, Valtinho e Gilson.
A escola francana e a oportunidade de ser visto
Franca entrou na carreira de Varejão como lugar de aprendizado. João Marcelo Leite foi seu treinador no juvenil em 2000 e 2001, conforme registro da Liga Nacional de Basquete. Anos depois, o reencontro entre professor e aluno teria outro sentido, com o treinador na direção do instituto criado em torno da trajetória do antigo atleta.
Hélio Rubens também faz parte dessa formação. Em reportagem do ge publicada em 2022, Anderson reconheceu a confiança recebida do treinador na renovação da Seleção Brasileira. Hélio abriu oportunidades para uma geração que incluía Nenê, Leandrinho e Tiago Splitter, além do próprio Varejão. O depoimento do pivô ajuda a mostrar a importância de um técnico disposto a dar responsabilidade a jogadores jovens.
Não foi uma passagem ornamental. Em janeiro de 2002, o Barcelona anunciou a contratação do brasileiro de 19 anos vindo do Franca. A notícia contemporânea do jornal espanhol El País registrava médias de 16,3 pontos, 9,1 rebotes e 2,9 tocos na Liga Paulista. São números de uma etapa específica, mas mostram por que ele despertava interesse antes de desembarcar na Europa.

Varejão em Franca, em registro identificado pelo ge como de 2002. Crédito original: Arquivo/Franca. Restauração digital assistida por IA.
Barcelona: aprender dentro de uma equipe campeã
A transferência colocou Varejão em um clube de projeção internacional. No Barcelona, integrou o elenco campeão da Euroliga de 2003. A conquista fazia parte de uma mudança de escala: o jovem formado em Franca passava a disputar espaço em uma equipe com atletas experientes e grandes ambições europeias.
A adaptação teve dificuldades. Em maio de 2003, a Folha de S.Paulo registrou que a troca de treinador havia reduzido suas oportunidades. Contratado durante o trabalho de Aíto García Reneses, Varejão passou a atuar sob o comando de Svetislav Pesic, que trouxe jogadores de sua confiança. O Barcelona conquistava títulos, mas o brasileiro precisava lidar com menos minutos em quadra.
As fotografias dessa fase mostram dois lados da experiência: a comemoração no vestiário e o contato com os torcedores, de terno e cachecol do clube. Não revelam por si só o que ele pensava naquele momento. Documentam, porém, a distância já percorrida entre o adolescente nas quadras francanas e o jogador que participava de uma celebração do Barcelona.

Varejão na fase do Barcelona, em imagem enviada por Marcelo Fradim. Data e evento específicos, assim como a autoria fotográfica, não foram informados.

Comemoração com o Barcelona, em fotografia disponibilizada pelo Instituto Anderson Varejão. Data exata e fotógrafo não informados na página. Restauração digital assistida por IA.
Cleveland: a torcida reconheceu o trabalho
No draft de 2004, Varejão foi escolhido pelo Orlando Magic na 30ª posição e chegou ao Cleveland Cavaliers em uma troca. Ali construiria a parte mais longa de sua carreira na NBA e uma identificação que sobreviveria à aposentadoria.
Seu espaço era o de um jogador capaz de melhorar o funcionamento da equipe. Rebotes ofensivos mantinham ataques vivos; movimentação e defesa criavam condições para os companheiros. Em 2009–2010, foi escolhido para o segundo quinteto defensivo da NBA e terminou em terceiro na votação de melhor sexto homem. O guia oficial dos Warriors de 2016–2017 registra essas distinções, que dão dimensão técnica ao reconhecimento popular.
Ao lado de LeBron James, disputou as finais de 2007, tornando-se o primeiro brasileiro a alcançar uma decisão da NBA. A projeção de Varejão não veio de ocupar o mesmo papel do astro. Veio de ter uma contribuição própria em uma equipe que chegava ao palco mais importante da liga.
A Noite das Perucas tornou essa relação com a torcida visível. Em vez de apenas comprar uma camisa, o público podia vestir uma característica do jogador. Reportagens contemporâneas registram edições da homenagem em 2006, 2008 e 2012. Em retrospectiva publicada em 2026, a CNN relata que a edição de 21 de fevereiro de 2006 recebeu reconhecimento do Guinness pela reunião de pessoas usando perucas em um ginásio. A cabeleira do brasileiro havia se transformado em um acontecimento coletivo.
O apelido “Wild Thing” atravessou esse período. Para quem o havia visto em Franca, o reconhecimento carregava outra perspectiva: aquele rosto, agora reproduzido em adereços de arquibancada, havia passado por uma formação que a cidade conhecia de perto.
Os obstáculos também fizeram parte da carreira
Houve momentos em que o corpo interrompeu o que o jogo parecia prometer. Em 2012–2013, Varejão acumulava médias de 14,1 pontos e 14,4 rebotes, mas uma lesão e, depois, uma embolia pulmonar encerraram sua temporada. O quadro foi divulgado pelos Cavaliers em janeiro de 2013.
A dimensão do episódio não precisa de dramatização. Um atleta em uma de suas melhores fases precisou interromper o trabalho para tratar a saúde. Seu retorno às quadras integra a história tanto quanto os títulos e as homenagens. Em 2013–2014, voltou a disputar 65 partidas pelos Cavaliers, segundo o balanço da própria franquia.
Em 2016, outra mudança: saiu de Cleveland, passou por uma troca envolvendo Portland e assinou com o Golden State Warriors. Na final daquela temporada, encontrou do outro lado os Cavaliers. O campeonato foi vencido por Cleveland, e o brasileiro viveu uma situação incomum, enfrentando a equipe à qual sua imagem estava tão ligada.
Uma das fotos enviadas ao Amo Franca o mostra conversando com o rapper Drake, usando roupa dos Warriors. O registro acrescenta uma dimensão da projeção alcançada pelo atleta, mas sua importância para Franca antecede esse universo de celebridades. Ela começa no processo de formação que o tornou capaz de permanecer entre os melhores jogadores do mundo.

O rapper Drake e Varejão durante a fase do brasileiro no Golden State Warriors. Identificação fornecida por Marcelo Fradim. Data, partida e autoria fotográfica não informadas.
A Seleção e uma volta ao Pedrocão
Varejão também levou essa trajetória à Seleção Brasileira. Foi campeão pan-americano em 2003, venceu as Copas América de 2005 e 2009 e disputou os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. A camisa do Brasil reuniu jogadores de percursos distintos, entre eles antigos jovens lançados por Hélio Rubens.
Em 2018, o pivô retornou ao basquete de clubes do país para defender o Flamengo. No ano seguinte, conquistou o NBB contra Franca, com vitória por 81 a 72 no quinto jogo da final, dentro do Pedrocão. O resultado foi doloroso para o torcedor francano, mas pertence à trajetória do jogador: o lugar de sua formação também foi palco de uma conquista como adversário.
Em maio de 2021, voltou aos Cavaliers para mais uma passagem. Em 2023, foi homenageado pela franquia e assumiu funções de embaixador global e consultor de desenvolvimento de atletas. A carreira passava a incluir outro tipo de contribuição, fora das partidas.

Varejão e Tiago Splitter pela Seleção. Fotografia disponibilizada pelo Instituto Anderson Varejão, sem data ou autoria fotográfica informadas na página. Restauração digital assistida por IA.
O nome na camisa de novas gerações
O Instituto Anderson Varejão mantém a relação com Franca por outro caminho. A entidade se apresenta como uma organização de inclusão social e educação pelo basquete, com trabalho voltado a crianças, adolescentes e famílias. Seu objetivo declarado inclui desenvolvimento, convivência e cidadania, sem restringir o esporte à descoberta de profissionais.
No ciclo de abril de 2026 a março de 2027, o projeto Ídolo Social SP Unidade 3 Ano 3 prevê atender 200 alunos em Franca e Sumaré, somadas. A ficha institucional informa financiamento pela Lei Paulista de Incentivo ao Esporte e parceria com a Villares Metals. É uma meta conjunta do projeto, não uma contagem exclusiva de Franca.
Em setembro de 2026, estudantes do IAV e do Instituto ASPA participaram de uma ação da Pró Basquete e do Franca Basquete no Pedrocão. Houve atividades esportivas e acompanhamento de uma partida do Paulista. A experiência aproxima quem está começando de um ambiente que ajudou a formar tantos jogadores, inclusive Varejão.
Da influência de Sandro à confiança dos treinadores, da adaptação na Europa às perucas em Cleveland, a trajetória de Anderson foi construída em relações que continuaram depois das transferências. Franca tem uma parte concreta nessa história: ajudou a formar o atleta que o mundo aprendeu a reconhecer. E continua entre os lugares onde seu nome se liga à possibilidade de outra criança começar a jogar.
Você viu Varejão na base ou no time principal de Franca? Conte uma lembrança com ano e local, ou envie uma foto identificada. A memória de quem esteve nas quadras e nas arquibancadas também faz parte desta história.