Além do desenho desse pacote de ajuste que promete buscar o centro da meta de superávit primário, as atenções de investidores e empresas se voltam agora para a definição da nova equipe econômica. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, cresceu entre as apostas para a pasta, mas o vice-presidente Geraldo Alckmin e um nome com reconhecimento no mercado seguem no páreo.
A questão política também se impõe. Com um Congresso mais à direita a partir de 2027, algumas medidas de transição teriam mais chances de passar se discutidas ainda neste ano.
Para Adriana Dupita, economista-chefe adjunta para mercados emergentes da Bloomberg Economics, um período conturbado vem pela frente.
O desafio, segundo ela, é "conduzir o orçamento público a um superávit grande o suficiente para estabilizar a dívida pública do país, que é alta e crescente", em meio às promessas feitas durante a campanha, a uma base de eleitores dividida e a um Congresso potencialmente hostil .
O mergulho da Bolsa na segunda (27) refletiu a frustração de investidores que precificaram uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL), apesar de pesquisas apontarem empate técnico.
Nessa perspectiva, a queda dramática em preços de ativos e a disparada de juros futuros eram tidas como certas. Em relatório publicado no início da madrugada de segunda, ela escreveu que há pouco motivo para o investidor desfazer posições compradas após o resultado do primeiro turno.
Dupita diz que os investidores temiam que o presidente, de inclinação esquerdista, "não respeitasse a independência do Banco Central, nomeasse uma diretoria mais branda ou reduzisse a eficácia da política monetária com o excesso de crédito subsidiado". Ela observa, porém, que a política monetária no terceiro mandato de Lula foi restritiva.
Na avaliação do economista André Perfeito, o comportamento do mercado lembra o cenário de 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição para presidente da República. Como naquela época, ele prevê alguns meses de mal-estar até que o mercado se estabilize. Até lá, diz, o investidor pode se proteger em CDBs de bons bancos e em títulos pós-fixados.
Para Perfeito, o mercado reage hoje porque teria que voltar à sexta-feira que antecedeu o primeiro turno. Naquele momento, a euforia de investidores levou à alta da Bolsa e à queda do dólar .
O que o mercado projetava àquela altura era, além da eleição de Flávio Bolsonaro, o início de uma temporada liberal na economia, somado a um Congresso predominantemente à direita.
A economista Daniela Cardoso Pinto, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), também espera uma reação negativa inicial, uma vez que Flávio Bolsonaro prometia cortar impostos e aprovar a contratação de trabalhadores por hora, o que animava o empresariado.
Na avaliação dela, o mercado deve responder mal por alguns meses, até se reacomodar.
Daniela afirma que o ajuste fiscal terá de acontecer, mas que o enxugamento de despesas tende a ser difícil diante do grau de bondades anunciadas por Lula nos últimos meses, que resultarão em gastos pelos próximos anos.
É o caso da elevação do teto de faturamento dos MEIs (microempreendedores individuais ) (anúncio que incluiu perdão de dívidas) e do reajuste do Bolsa Família, por exemplo.
"O que pode ajudar é que a Selic deve cair ou ficar estável, não havendo novas pressões inflacionárias como guerra. Caindo juro, a dívida também cai", afirma.
Ela vê chances, ainda, de o país começar a sentir os efeitos positivos de acordos de transferência de tecnologia costurados pelo Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) com empresas chinesas, coreanas e alemãs. "Continuando o mesmo governo, a tendência é muito boa, pois leva um tempo até os efeitos aparecerem", diz.
Para o economista José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), os dois meses que antecedem o início do novo mandato devem ser dedicados mais às questões políticas e à costura de acordos pela governabilidade do que às urgências da economia.
Na avaliação dele, o encaminhamento da questão fiscal deverá ser tratado nesse arranjo político, do qual também devem fazer parte o mercado, o agronegócio e a indústria.
A reforma tributária, cujos primeiros efeitos começarão a ser sentidos em 2027, ajudará na melhora da arrecadação. Para Gonçalves, porém, o governo deverá buscar um novo equilíbrio na tributação, o que poderá passar pela desoneração de alguns setores e pela oneração de quem não paga ou paga pouco.
Ele considera ainda que o governo precisará lidar com o financiamento da Previdência Social, o que passa também por discutir o modelo do MEI e a dinâmica do mercado de trabalho.
"Não tenho dúvida de que venha alguma coisa em relação a esses temas, não dá para desviar", afirma. "Mas não imagino que isso vire uma proposta de desvinculação [dos benefícios previdenciários do salário mínimo]."