Análise: Saques a marcas de grifes durante protestos na França expõem

22/10/2026 00h00 Atualizado 22/10/2026 00h00 Em meio a todas as imagens e vídeos dos tumultos que ocorreram na França no fim de semana, os mais chocantes são os da torre do relógio que desabou em Limoges, depois que a prefeitura da cidade,

Por Admin ·

Análise: Saques a marcas de grifes durante protestos na França expõem

22/10/2026 00h00 Atualizado 22/10/2026 00h00

Em meio a todas as imagens e vídeos dos tumultos que ocorreram na França no fim de semana, os mais chocantes são os da torre do relógio que desabou em Limoges, depois que a prefeitura da cidade, um edifício do século XIX, foi incendiada. Logo atrás, porém, vêm as imagens de saqueadores invadindo lojas de marcas de luxo como Celine, Hermès, Louis Vuitton e Saint Laurent, rompendo as enormes vitrines de vidro que funcionam como uma barreira entre o mundo exterior e os interiores silenciosos destinados aos ultrarricos, estilhaçando as reluzentes vitrines de exposição e levando as mercadorias.

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Dos mais de 3 mil estabelecimentos comerciais afetados pelos protestos, que se intensificaram e atingiram supermercados, farmácias e pequenos negócios familiares, foram as cenas de destruição de lojas de luxo que mais chamaram a atenção — e despertaram a imaginação — de pessoas que acompanhavam os acontecimentos pelo mundo.

Sempre que manifestações vêm acompanhadas de saques, elas provocam discussões sobre expressões mais amplas, muitas vezes difusas, de revolta contra a desigualdade, não apenas na França, mas em todo o mundo. Seria fácil interpretar o episódio como mais um capítulo de uma longa história em que produtos de luxo são usados como símbolo da injustiça social e econômica — uma tradição que remonta à Revolução Francesa. Porém, os ataques também são uma reação a uma realidade particularmente contemporânea, criada pela própria indústria do luxo.

Afinal, a situação atual representa a terceira onda de ataques físicos contra marcas de luxo nos últimos oito anos na cidade que se apresenta como a capital mundial do setor. Em 2023, durante o movimento contra a reforma da Previdência proposta pelo governo, manifestantes invadiram a sede da LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy) na avenida Montaigne, em Paris , agitando sinalizadores e, por fim, queimando uma efígie de Bernard Arnault, o bilionário dono do grupo — que, naquele ano, chegou a ser por um breve período o homem mais rico do mundo.

Em 2019, lojas da Dior e da Chanel na avenida Champs-Élysées, em Paris, entre outros estabelecimentos de luxo, foram saqueadas durante manifestações dos coletes amarelos. Fachadas de lojas fechadas com tábuas passaram a fazer parte da paisagem.

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Segundo Serge Carreira, diretor da iniciativa de marcas emergentes da Federação da Alta-Costura e professor associado da Escola de Gestão e Impacto da Sciences Po, “a França sempre cultivou uma relação de amor e ódio com o luxo — orgulhosa de sua influência global, desconfiada de sua moralidade e crítica à sua essência desigual”.

De certa forma, é justamente essa influência, cultivada com tanto empenho pelas próprias marcas, que agora está se voltando contra elas.

'Realização materialista'

O setor de luxo usou as redes sociais e seu próprio prestígio cultural para se tornar onipresente na vida até mesmo de quem não pode pagar por seus produtos. Graças a embaixadores famosos, à transformação dos desfiles de moda em entretenimento e dos tapetes vermelhos em oportunidades de marketing, todo mundo conhece a Dior, mesmo que nunca compre um produto da marca. O mesmo vale para Louis Vuitton, Chanel, Burberry e tantas outras.

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Paradoxalmente, porém, ao se apresentarem como o ápice da aspiração e do bom gosto, essas marcas também elevaram tanto seus preços que seus produtos se tornaram inacessíveis para quase todos. São emocional e psicologicamente sedutores, mas, na prática, inalcançáveis.

— (Como resultado), a maior parte da geração mais jovem se sente excluída desse mundo — afirma Carreira. — Não há mais sonho, apenas inveja e raiva.

Esses sentimentos se manifestaram por meio da destruição física. Ao quebrar as vitrines das lojas opulentas, os manifestantes estão destruindo um sistema que oferece apenas a promessa de inclusão, disse Carreira.

— Eles escapam das normas e alcançam uma forma de realização materialista — explica.

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Ao se apropriarem dos próprios produtos — muitos dos quais acabaram no mercado de revenda de artigos de luxo e no mercado ilegal —, os saqueadores tomaram para si parte daquilo que lhes havia sido negado e literalmente levaram essas mercadorias para as ruas.

Nesse contexto, em vez de símbolos do trabalho artesanal e do patrimônio cultural, como as marcas de luxo costumam descrever a si mesmas e seus produtos, as mercadorias passam a representar o excesso e a decadência do capitalismo.

Sobre os próximos passos, Dior, Celine e Hermès não responderam aos pedidos de comentário, se recusaram a comentar o que aconteceu com suas lojas ou não informaram quais medidas adotaram para protegê-las. A Ralph Lauren não respondeu aos e-mails enviados.

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Uma nota interna enviada aos funcionários da LVMH em 19 de outubro por Antoine Arnault, responsável pela área de comunicação e sustentabilidade do grupo, e obtida pelo New York Times, informou que a empresa havia “tomado as medidas adequadas para garantir a segurança de todos e a continuidade de nossas operações”. Segundo relatos, seguranças particulares foram contratados. Arnault também agradeceu aos “artesãos, virtuosos e a todos os integrantes de nossas equipes”, chamando-os de “nossos melhores embaixadores”.

Com a imposição de toques de recolher na França e as cidades se preparando para uma nova rodada de protestos, o governo promete reforçar a segurança.

— Acredito que a avenida Montaigne e a rua Faubourg Saint-Honoré serão como Fort Knox no próximo fim de semana e em qualquer outro dia de protesto nas próximas semanas — observa Carreira, em referência ao complexo militar americano conhecido por abrigar reservas de ouro e contar com forte esquema de segurança.

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