Anabolizantes podem desequilibrar reações emocionais, mas não causam perda de memória, diz médico

O lutador de jiu-jítsu Lucas Portela Fontana Gomes, 32, preso na última quinta-feira (5) após agredir duas vizinhas na Tijuca, no Rio de Janeiro, disse à polícia que usa anabolizantes e antidepressivos e que não se recordava das agressões .

Por Admin ·

Anabolizantes podem desequilibrar reações emocionais, mas não causam perda de memória, diz médico

Para o endocrinologista Filippo Pedrinola, não há evidência que indique uma associação entre o uso das substâncias e o alegado esquecimento.

"Não existe uma interação universal que explique o comportamento violento do antidepressivo com anabolizante ", afirma o médico, membro da Sbem (Sociedade Brasileira Endocrinologia Metabologia) e da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica).

Segundo ele, a amnésia também não é um efeito esperado. "A amnésia não é uma consequência típica do uso específico de anabolizantes ou da interação com antidepressivo."

Pedrinola ressalva que cada caso depende do contexto clínico. Alguns antidepressivos, diz, podem provocar agitação e, raramente, desencadear mania em pessoas predispostas. Já a perda de memória costuma ter outras origens: intoxicação por substâncias, como o álcool, estados confusionais e certas condições neurológicas ou psiquiátricas.

Os anabolizantes são derivados da testosterona modificados em laboratório. O efeito, diz o médico, vai além do ganho de massa muscular, que costuma ser o motivo do uso.

As substâncias atravessam a barreira hematoencefálica, que protege o cérebro, e agem em receptores de áreas ligadas ao comportamento. Entre elas estão a amígdala, responsável pelo processamento emocional, o hipotálamo, envolvido em comportamentos instintivos, e o córtex pré-frontal, que ajuda a controlar impulsos. Elas também podem alterar a sinalização de neurotransmissores como serotonina, dopamina e GABA.

Em doses muito altas, afirma Pedrinola, isso pode desequilibrar a reatividade emocional e o autocontrole, o que favorece irritabilidade e comportamento agressivo. "A testosterona não transforma automaticamente alguém em uma pessoa violenta, mas o abuso desses androgênios pode contribuir para uma diminuição do controle dos impulsos, principalmente em pessoas mais suscetíveis."

O médico lembra que isso não significa que todo usuário se torne violento e que a agressividade não depende de uma única região cerebral, mas da interação entre os circuitos que processam ameaças e emoções e os que regulam a resposta comportamental.

O risco, segundo Pedrinola, aumenta com a dose. "Quanto maior for a dose, maior o risco de ter esses efeitos colaterais." A preocupação recai sobre as doses suprafisiológicas, acima das produzidas naturalmente pelo corpo, usadas em ciclos para hipertrofia muscular. O médico aponta a distinção entre o uso estético e o tratamento voltado à reposição de testosterona em pacientes com hipogonadismo —condição em que os testículos produzem testosterona em quantidades insuficientes—, feito com indicação e acompanhamento médico.

Segundo a investigação, a série de agressões começou quando vizinhos acionaram a polícia, no início da madrugada de quinta (5), após ouvirem barulho de gritos e agressões vindos do apartamento do lutador.

Em seguida, Gomes começou a invadir os apartamentos vizinhos, enquanto gritava que iria "matar todos no prédio", segundo o relato colhido pelos policiais.

Uma vizinha que teve o apartamento invadido fugiu com a família pela escadaria do prédio. Em seguida, diz a investigação, o lutador entrou em outro apartamento e agrediu com socos, chutes e cotoveladas uma mulher de 81 anos.

Uma terceira vizinha subiu pelo elevador para tentar acudir a vítima, mas foi espancada por Gomes. Vídeo da câmera do elevador mostra que a sequência de agressões dura quase três minutos. O lutador dá um chute na vítima para que ela entre no elevador e depois desfere mais de 30 socos e cotoveladas.

Ele ainda aplica um golpe de artes marciais, como um mata-leão, e leva a mulher ao chão. Ali, com a vítima ferida e ensanguentada, o suspeito desfere mais socos. A polícia classificou de brutais as agressões.

Três minutos depois, Gomes sai do elevador e deixa a mulher caída, com lesões no rosto, braços e pernas. O chão e a parede do elevador ficaram cobertos de sangue.

Avisados pela vizinhança, guardas municipais acionaram policiais militares, que foram até o prédio. Em nova tentativa de agressão, Gomes reagiu, segundo a polícia, e foi baleado na perna.

As duas mulheres espancadas e Gomes foram levados ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro. De lá, o lutador foi encaminhado para o presídio de Benfica.

A 18ª DP (Delegacia de Polícia), na Praça da Bandeira, ouviu testemunhas e obteve imagens de câmeras de segurança. A Polícia Civil afirma que Gomes, que foi autuado, responderá por tentativa de feminicídio, ameaça, invasão de domicílio, lesão corporal e resistência.