O filme brasileiro, uma coprodução com Portugal e França, chega aos cinemas nesta quinta-feira. Em sua narrativa, revê o luto, a identidade e a ancestralidade de quem se percebe apenas de passagem, o "en passant" do título em francês.
A obra, que demandou quase uma década para ser produzida, mescla técnicas de animação e acompanha a jovem negra franco-brasileira Ana. Criada pela avó após a morte da mãe, a protagonista sofre uma nova perda familiar e, diante da descoberta de uma caixa recheada de memórias, decide viajar da cinzenta Paris para a rítmica Belo Horizonte em pleno Carnaval.
Valendo-se de fotos, pedaços de papel e cupons fiscais, a diretora cria um "scrapbook" —álbum de recortes— que "tece essa coleção de memórias da mãe, da avó e dela mesma", diz Salgado.
Com o objetivo incerto do que procurava na cidade, Ana é levada ao antigo apartamento da avó, onde encontra sua "irmã de outra vida", Alice, a atual residente do imóvel. Apesar das personalidades, criações e ideias distintas, Alice e Ana —ambas interpretadas por Jéssica Pierina— ficam sem saber o que fazer diante da inusitada situação. Guiadas por um sentimento sem nome, percebem que devem seguir juntas.
Ambas mergulham em incertezas sobre si mesmas: enquanto Ana encara o luto por sua avó —que também se chamava Alice—, a outra Alice passa por uma gravidez difícil, que requer isolamento. Para Pierina, o elo entre elas se dá pela dor e mudança. "As duas têm muitas diferenças, mas a semelhança principal é o momento de transformação —o luto físico e a descoberta de um novo corpo", diz a atriz.
Diante da recriação de lugares de Belo Horizonte —como a praça Raul Soares, o Viaduto Santa Tereza e a rua Sapucaí—, Ana tenta refazer os passos da avó para encontrar um significado para a sua própria identidade e resgatar suas raízes. Com tom de conselheira, a avó Alice —vivida por Zezé Motta — orienta a jornada por meio das lembranças da neta. Entre tantos ensinamentos, Motta destaca a lição sobre "não perdermos a nossa essência e sabermos quem somos e de onde viemos".