'Amor Possível' transforma mandamento bíblico em drama sobre desigualdade

No fim dos anos 1980, o diretor polonês Krzysztof Kieslowski lançou o que muitos julgam ser sua obra-prima —o "Decálogo", grupo de uma dezena de filmes que adaptavam cada um dos dez mandamentos bíblicos, em tramas passadas na Polônia da épo

Por Admin ·

'Amor Possível' transforma mandamento bíblico em drama sobre desigualdade

O primeiro deles foi "Contos Paralelos" —inspirado em "não cometerás adultério"—, que o iraniano Asghar Farhadi filmou na França e que foi recebido com desprezo no último Festival de Cannes. Bastante mais bem-sucedida foi a versão do sul-coreano Lee Chang-dong, "Amor Possível" , em cartaz a partir desta sexta na Netflix, que levou no último Festival de Veneza o Grande Prêmio do Júri.

Com base no mandamento "não cobiçarás", o diretor aproveita para desengavetar um roteiro que acabou abandonando precocemente.

"Já havia escrito essa história sobre possibilidades de amar antes de me sugerirem participar do projeto, e logo vi que poderia conectá-la de alguma forma ao último mandamento, sobre não cobiçar o que não é nosso. Eu me perguntei: na sociedade capitalista atual, quando o valor do trabalho pode ser retirado de nós com tanta facilidade, é verdadeiramente possível viver sem desejar o que os outros possuem?", disse o cineasta, em Veneza.

A questão do trabalho está no cerne do longa de Lee. "Amor Possível" mostra um casal de baixo poder aquisitivo cuja situação fica ainda pior depois que Ho-seok é mandado embora de uma grande empresa sul-coreana, que promove uma demissão em massa. Sua mulher, Mi-ok, é quem precisa segurar as pontas financeiras, além de ter que lidar com o agravamento do alcoolismo do marido após ser despedido.

A cineasta Ye-ji se solidariza com o drama dos demitidos e decide fazer um documentário sobre eles. Casada com o rico empresário Sang-woo, ela passa a filmar a rotina do casal em crise financeira, convidando-os a passar uns dias em sua luxuosa casa de praia. A gritante diferença de realidade entre cada dupla fica mais que evidente.

"Hoje em dia, o que costumávamos chamar de divisão de classes —ou de luta de classes— perdeu quase todo o sentido. Esses termos já não dão conta da realidade, porque o abismo é imenso", diz o diretor. "Não é apenas uma questão de não estarmos na mesma atmosfera: é uma estratosfera diferente. A influência que esse nível de patrimônio e riqueza exerce sobre o restante de nossas vidas é uma diferença de uma magnitude impressionante."