Ameaças de bomba e ataques cibernéticos provocam

Refrigeradores de supermercados em vários países da Europa foram hackeados. Bancos de sangue também. Ameaças de bomba obrigaram dezenas de voos a permanecer em solo no continente e levaram ao esvaziamento de algumas redações de jornais . Go

Por Admin ·

Ameaças de bomba e ataques cibernéticos provocam

Refrigeradores de supermercados em vários países da Europa foram hackeados. Bancos de sangue também. Ameaças de bomba obrigaram dezenas de voos a permanecer em solo no continente e levaram ao esvaziamento de algumas redações de jornais . Governos europeus emitiram alertas urgentes sobre uma vulnerabilidade em um software amplamente utilizado. E o governo britânico lançou uma campanha com um tom levemente sombrio, que aconselha os cidadãos: "Esteja preparado".

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A combinação de desordem e instabilidade das últimas semanas deixou autoridades europeias correndo para identificar os responsáveis e moradores incomodados, confusos ou assustados. Os países enfrentam dificuldades para se defender de adversários interessados em roubar dados e provocar interrupções na vida cotidiana — às vezes de maneiras que antes pareciam distantes, mas agora afetam atividades rotineiras, como fazer compras no supermercado.

Sejam meros transtornos ou ameaças reais, os episódios evidenciaram, em conjunto, a vulnerabilidade da Europa em uma era de conexão digital. Entre os prejuízos estão alimentos estragados, tempo perdido com atrasos e desvios de voos e os custos do envio de caças militares para escoltar algumas aeronaves até pousos seguros . Os acontecimentos também deixaram em aberto a questão de como e quando essa turbulência poderá diminuir.

— A desestabilização psicológica foi alcançada — afirma Ciaran Martin, ex-alto funcionário britânico responsável por questões de segurança cibernética. — Em um momento em que os europeus ocidentais já têm motivos suficientes para se preocupar, agora recebem notícias de que podem ir ao supermercado comprar uma refeição prática em um dia corrido e encontrá-la derretida. Isso alimenta essa sensação de insegurança.

Ainda não está claro quem está por trás das invasões. Elas ocorreram em meio a uma onda crescente de operações de sabotagem que autoridades ocidentais atribuem à Rússia , que tenta enfraquecer o apoio europeu à Ucrânia . Questionado sobre os ataques aos refrigeradores, um porta-voz do Kremlin negou qualquer envolvimento.

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Autoridades de países europeus levantaram suspeitas de que os ataques estejam relacionados, ainda que não tenham sido realizados por um único agente, mas motivados por um objetivo comum de "criar pânico", como afirmou o ministro da Defesa da Itália , Guido Crosetto, a jornalistas nesta semana. Ele também mencionou uma série de avistamentos de drones sobre instalações militares e aeroportos europeus nos últimos meses.

— Está tudo conectado: os refrigeradores, o sangue na França , os drones, os aviões, as ameaças — disse.

Depois que redações de veículos de comunicação na Irlanda foram esvaziadas na sexta-feira em resposta a ameaças de bomba enviadas por e-mail, o governo irlandês afirmou que "parece provável que se trate de uma campanha coordenada de desestabilização". O comunicado também mencionou as ameaças contra aeronaves.

Embora as ameaças de bomba tenham se revelado falsas, a suspensão de tantos voos demonstrou como um grupo desconhecido pode exercer um poder imenso, ressalta John May, de 45 anos, que viajava de Dublin para Roma para comemorar seu 20º aniversário de casamento. O voo foi desviado para a Base Aérea de Évreux-Fauville, na França.

"Isso está acontecendo para mostrar às potências europeias como é fácil provocar pânico e desordem em massa", explica ele em uma mensagem privada nas redes sociais. "A Europa precisa reforçar sua segurança."

Outros europeus disseram que os episódios reforçaram a sensação de incerteza em relação ao futuro.

— Em que tipo de mundo estamos entrando? — questiona Frederic Bombaerts, de 58 anos, enquanto almoça em um bar de Bruxelas na sexta-feira. — Nos últimos anos, tudo ficou um pouco mais preocupante, isso é certo.

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A semana começou com a ampliação dos ataques cibernéticos a supermercados, iniciados no mês passado na França. Na segunda-feira, estabelecimentos na Bélgica , Estônia , Finlândia , Irlanda, Luxemburgo , Holanda e Suécia relataram problemas nos sistemas de refrigeração, cujas temperaturas começaram a subir de forma descontrolada. Segundo as autoridades, hackers exploraram vulnerabilidades em um software que controlava os equipamentos. Em seguida, os ataques atingiram bancos de sangue franceses.

— A repetição desses ataques cibernéticos é profundamente preocupante — destaca Christophe Hansen, comissário de Agricultura e Alimentação da União Europeia, em comunicado. — Eles são uma tentativa deliberada de interromper nossa cadeia de abastecimento alimentar e abalar a confiança dos consumidores nela, um alerta que precisamos levar a sério.

Não houve pedidos de resgate. Martin classificou a onda de invasões como "intrigante", já que ninguém reivindicou a responsabilidade pelos ataques e as autoridades tampouco identificaram suspeitos. Em comparação, após um ataque cibernético de proporções enormes, que causou prejuízo de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34,7 bilhões,na cotação atual) no mês passado à Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, o FBI rapidamente concluiu que a operação havia sido realizada por uma unidade de hackers norte-coreanos.

Nenhum governo adversário foi implicado em qualquer um dos ataques. O porta-voz do Kremlin, Dmitri S. Peskov, rejeitou as acusações de que grupos pró-Rússia estariam por trás dos ataques aos supermercados, classificando as alegações como "absurdas". Especialistas em segurança cibernética também receberam com ceticismo as declarações de grupos russos que reivindicaram as ameaças de bomba.

As ameaças de bomba e os ataques cibernéticos apresentam características das chamadas operações híbridas, que normalmente têm origem na Rússia, diz Peter Neumann, professor de Estudos de Segurança do King's College London. Os alvos eram dispersos, e o objetivo parecia ser provocar desordem.

— O objetivo de uma campanha híbrida é criar caos, incerteza e uma sensação de ameaça — observa.

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Outros ataques híbridos — ações agressivas que não chegam a configurar um conflito militar direto — atribuídos à Rússia nos últimos anos incluem incêndios criminosos, incursões de drones e ataques a infraestruturas.

A Rússia também tenta explorar divisões internas em países europeus, como a Alemanha , onde as divergências sobre o apoio à Ucrânia se intensificaram, afirma Neumann.

Líderes europeus devem se reunir na próxima semana na Irlanda, cujo serviço público de radiodifusão recebeu uma ameaça de bomba na sexta-feira, provocando a evacuação de sua sede em Dublin. Outros veículos de comunicação irlandeses também receberam mensagens ameaçadoras, assim como a emissora britânica Sky News.

"Os líderes europeus precisam assumir o controle. Isso não pode continuar", reforça Barry Andrews, eurodeputado irlandês, nas redes sociais.

Algumas autoridades têm adotado a estratégia de envolver a população no reforço das defesas contra diferentes tipos de ataques e invasões. Em um evento no mês passado, Wes Streeting, secretário de Defesa do Reino Unido , afirmou que a população deveria estar preparada para enfrentar uma série de ameaças muito graves.

Ele mencionou uma vulnerabilidade no PHP, uma linguagem de programação de código aberto utilizada no funcionamento de sites e aplicativos da internet. Streeting afirmou que as pessoas deveriam estar "alertas, mas não alarmadas".

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Agências de segurança, incluindo a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), emitiram alertas sobre a falha no PHP, provocando temores na Europa e em outras partes do mundo sobre possíveis interrupções nos serviços utilizados por consumidores e empresas.

Autoridades britânicas também têm aconselhado a população a se preparar para enfrentar três dias de interrupções no fornecimento de serviços essenciais, como água e eletricidade, seja por causa de condições climáticas extremas, ataques cibernéticos ou outros fatores. Entre as recomendações estão estocar água, alimentos, pilhas e dinheiro em espécie, entre outros itens.

— Estamos sempre procurando sinais de que o problema é de outro país — ressalta Lucy Easthope, especialista em planejamento de emergências e professora da Universidade de Bath, na Inglaterra. — Mas não é um problema de outro país. É um problema nosso.

Ela aconselhou as pessoas a não ficarem assustadas, mas a estarem mais preparadas.

Bombaerts, em Bruxelas, contou que ele e a esposa começaram a estocar suprimentos há cerca de seis meses, incluindo garrafas de água, lanternas e alimentos como quinoa e cereais, em preparação para situações imprevisíveis.

— Estamos percebendo que chegamos ao fim de uma era, uma era em que o equilíbrio de poder está mudando e o centro de gravidade também está se deslocando — afirma. — O equilíbrio geopolítico está mudando.