Segundo a empresa, os anfitriões poderão continuar fazendo pedidos razoáveis, como colocar a louça usada na pia, desligar o ar-condicionado antes do check-out e juntar as toalhas usadas. O objetivo, afirma, é tornar as regras mais claras e evitar exigências excessivas.
A fonoaudióloga Carla Aparecida Simões Orfão Galante, 52, que tem seis imóveis em São Paulo, diz que um copo na pia não pesa para o anfitrião, mas, quando o hóspede usa todos os talheres, copos e pratos e os deixa espalhados pela casa com restos de comida, a situação se complica. Cadastrada no Airbnb desde 2018, a limpeza é feita por ela e pelo marido, cujo custo está embutido no aluguel.
Carla diz que exige apenas que hóspedes não fumem nem recebam visitas sem aviso prévio. Como regra de boa convivência e cuidado básico, ela pede para descartar a sujeira e lavar os itens utilizados.
Ela conta que um de seus hóspedes deixou suja toda a louça que havia na casa, mas que esse não é o padrão. Em outra ocasião, após 12 dias de hospedagem, um grupo deixou o imóvel com forte odor, que resistiu às limpezas. Ela diz que precisou lavar as roupas de cama mais de uma vez, além de limpar paredes com vinagre e ventilar o ambiente.
As crianças do grupo urinaram no colchão, e ela precisou descartá-lo. Para pedir ressarcimento ao Airbnb, diz, precisaria apresentar a nota fiscal do colchão, que já não tinha.
Proprietários de imóveis dizem que o sistema de avaliação funciona como um parâmetro para o anfitrião avaliar se deve ou não aceitar um pedido de estadia.
Em Avaré, no interior paulista , um prestador de serviços que preferiu não ser identificado trabalha para anfitriões de duas casas, controlando entradas e saídas, cuidando da limpeza e da seleção de hóspedes.
Ele diz que, na maioria das hospedagens, não cobram taxa de limpeza, mas envia um memorando no fim da estadia com pedidos para deixar a louça lavada e guardada, colocar o lixo para fora, fechar a casa e não deixar restos de comida.
A taxa foi abandonada porque os visitantes passaram a entender que o pagamento os dispensava de qualquer cuidado, afirma. Com a mudança anunciada pelo Airbnb, diz que pensa em voltar a cobrá-la. O valor é definido pelo anfitrião, como R$ 50 ou R$ 100, e pode ser repassado ao hóspede.
Para evitar problemas, ele verifica a nota do hóspede antes de aceitar a reserva. Com três estrelas, lê os comentários deixados por outros anfitriões. "Quando a estrela é baixa, nem aceito."
A advogada Ana Paula Alves Duarte, 36, é anfitriã de três imóveis no Airbnb: uma casa em Araxá (MG), que administra à distância, e dois estúdios em São Paulo, geridos por uma empresa especializada. Ela afirma que, para quem terceiriza a gestão, o impacto financeiro das novas regras tende a ser pequeno, porque a taxa de limpeza fica com a empresa contratada e o custo não entra no cálculo do repasse ao proprietário.
O efeito maior, segundo ela, será sentido por quem administra o imóvel diretamente e tem casas grandes, que recebem de seis a dez pessoas. Nesses casos, diz, o volume de roupa de cama, toalhas e louça a cada saída é muito maior. O prazo de limpeza entre uma estadia e outra pode não ser suficiente. Ela afirma que esses anfitriões precisarão bloquear a agenda por pelo menos um dia entre hóspedes, reduzindo a ocupação e, por consequência, a receita.
Para a anfitriã, lavar a louça e tirar o lixo sempre foram uma gentileza pedida, e não uma obrigação.
Um hóspede descuidado, após diversas avaliações negativas, pode ficar sem conseguir novos aluguéis. Duarte também diz que a demanda por aluguéis curtos vem caindo. Na casa de Araxá, que até 2023 tinha agenda quase sempre cheia, hoje só fica ocupada aos fins de semana.