O dilema, posto por uma tiktoker, teve uma reação feminina em peso: o bicho, óbvio. As justificativas iam de "o máximo que o urso pode fazer é me matar" a "pelo menos as pessoas iam acreditar em mim se eu dissesse que fui atacada por um urso".
Não é à toa que a jornalista Cristina Fibe resgata esse debate viral de 2024 em "Você Não Está Sozinha", livro que será lançado em São Paulo nesta quinta (5). "Os homens não entendem que a maioria de nós prefere ser morta e dilacerada por um urso, ou ter alguma chance de correr para escapar dele, do que lidar com o inegociável, que é ser dominada, estuprada e dilacerada por um ser humano."
É um exemplo drástico? É. Mas reflete com precisão um mundo que não dá trégua às mulheres, expostas a uma engrenagem de violências em suas formas mais variadas, da física à psicológica, e que tantas vezes se justapõem.
Isso a autora descreve bem ao elencar um ciclo noticioso que, só de 2018 para cá, relatou casos como o do homem que carrega uma mulher desacordada por três quilômetros, para estuprá-la, o médico anestesista que violenta uma mãe que acabou de parir, o ex-jogador Robinho debochando do estupro coletivo do qual participou, e uma recém-nascida morta aos 27 dias de vida, com lesões nas partes íntimas. O pai foi preso no enterro.
Verdadeiros monstros? Aí é que está. Para Fibe, tratá-los como aberrações isoladas mascara o fato de que são homens comuns criados por uma cultura patriarcal que naturaliza o domínio sobre os corpos femininos. Vê-los como monstros, inclusive, acaba enfraquecendo a voz da mulher nos casos em que a violência é velada e o agressor não veste a carapuça do algoz evidente.