25/10/2026 03h30 Atualizado 25/10/2026 12h38
Na véspera da sua primeira eleição, Luiz Inácio Lula da Silva chegou em casa exausto e confiante. O ano era 1982, e o Brasil, ainda sob o regime militar, vivia as primeiras eleições diretas para governador em quase 20 anos. Fundador de um partido diferente de todos os outros, o PT, Lula, aos 37 anos, encheu praças e fez bonito nos debates de TV para governador de São Paulo. Assim que chegou em casa, sua mulher, Marisa, lhe mostrou um exemplar da Folha de S. Paulo com uma pesquisa que o colocava em terceiro lugar na eleição do dia seguinte.
— Esse jornal da burguesia não está com nada, porra! Eu ganhei a eleição — disse Lula.
O resultado no dia seguinte mostrou que, realmente, a pesquisa estava errada. Lula não ficou em terceiro, mas em quarto lugar, com pouco mais de 1,1 milhão de votos. O veterano senador Franco Montoro, do PMDB, foi eleito com mais de 5 milhões de votos.
— Doeu. Entrei em desespero, perdi o rumo. Só tinha uma certeza: eu tinha acabado para a política — contou Lula décadas depois ao biógrafo Fernando Moraes.
Lula não acabou para a política naquela derrota, nem na seguinte, em 1989, quando surpreendeu e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, à frente de nomes mais experientes como Leonel Brizola, Mário Covas e Ulysses Guimarães. Na primeira eleição presidencial direta no país em 29 anos, Lula perdeu, mas com os 31 milhões de votos ganhou o posto de maior líder da oposição.
Anos depois, já presidente por dois mandatos, disse que “agradecia a Deus por não ter ganho (em 1989), porque eu era muito novo, muito mais radical do que em 2002 (quando venceu) e, portanto, poderia ter feito bobagem”.
O Lula de 80 anos que deixou o hotel Renaissance, em São Paulo, na noite do primeiro turno de 2026, havia desaprendido a perder uma eleição. Dos últimos seis pleitos presidenciais, o PT venceu cinco, e a única derrota aconteceu com Lula preso. Ao longo de toda a tarde do primeiro turno, Lula se fechou numa sala com a atual mulher, Janja, sem celular e com a TV desligada.
Assim como em 1982, contrariando todas as pesquisas, Lula estava convicto da vitória. Assim como daquela vez, ele levou um choque por ter ficado atrás do senador Flávio Bolsonaro por uma diferença de 2,2 milhões de votos.
Depois de um discurso confuso para uma plateia com expressão de enterro, Lula deixou o hotel resmungando. Dizia não entender como podia ter tido menos votos depois de quatro anos de um governo que, ele insistia em dizer, era o melhor dos seus três mandatos. “Como foi que isso aconteceu?!”, repetia.
Como sempre ocorre nas derrotas, o comando da campanha petista virou uma caça às bruxas. A primeira-dama Janja da Silva, o ministro Sidônio Palmeira e o dirigente Edinho Silva eram os alvos favoritos, mas ninguém tinha coragem de apontar o principal responsável, o próprio Lula.
A campanha do primeiro turno foi um reflexo de governo autocentrado e sem disposição de ouvir críticas.
Foi um consenso entre os oito ministros e ex-ministros ouvidos nesta reportagem que Lula assumiu em 2023 imaginando um mundo parecido com o de 2010, quando terminou o segundo mandato com aprovação recorde. Ele minimizou a força popular do bolsonarismo, a revolução da comunicação digital, a independência do Congresso com as emendas parlamentares e o protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) desde o julgamento do mensalão. Além disso, os anos de Lava-Jato e a prisão o deixaram ressentido com o empresariado e a mídia. Assim como reconheceu depois que não estava preparado para ser presidente em 1989, Lula estava desatualizado para o seu terceiro mandato no Planalto.
Por fim, havia Janja, que trouxe ao discurso lulista preocupações de gênero e raça, o incentivou a uma vida saudável e, ao mesmo tempo, o isolou de qualquer crítica. Mais velho e menos paciente, o presidente usou o nome de Janja para se isolar. Almoçava em casa quase todos os dias, raramente ficava no Palácio do Planalto depois das 19h30 e limitou até os telefonemas de ministros fora do expediente. Em Lula 3 se acabaram os churrascos do fim de semana na Granja do Torto e os uísques de quinta-feira com líderes do Congresso. Nunca se saberá até onde esse isolamento era decisão do próprio Lula ou de Janja, mas é fato que a reclusão influiu na relação interna do Ministério e do Planalto com o Congresso e o Supremo.
Outro consenso dos entrevistados desta reportagem é que o governo Lula 3 partiu de uma premissa errada, a de que o resultado de 2022 era uma revanche popular à prisão de Lula e não uma rejeição a Jair Bolsonaro.
— Esse erro de avaliação contaminou o governo. Ele permitiu que Lula deixasse de lado a frente ampla que o elegeu, se isolasse com assessores que só diziam o que ele queria ouvir e não levasse a sério a capacidade de reação do bolsonarismo — disse um ex-ministro.
Lula subestimava tanto a força do bolsonarismo que, em junho de 2024, respondendo sobre a possibilidade de Jair Bolsonaro reverter a inelegibilidade, respondeu:
— Se eu derrubei ele quando era oposição imagina agora que eu sou situação. Eu vou mostrar para ele que só perde uma eleição quem está na Presidência quem é incompetente — gabou-se.
Hoje corre o risco de repetir o mesmo fracasso de Jair Bolsonaro.
No papel, Lula 3 foi o governo mais amplo do período democrático. Entre os ministros estavam cinco ex-candidatos a presidente (Geraldo Alckmin, Marina Silva, Fernando Haddad, Guilherme Boulos e Simone Tebet) e representantes de 11 partidos, do PSOL ao União Brasil. Na prática, foi o governo mais petista da história. A frente ampla que ajudou a devolver Lula ao Palácio do Planalto em 2022 foi esquecida. Conta-se nos dedos o número de ministros que tiveram acesso ao presidente ao longo dos últimos quatro anos, e o único que não era petista era Boulos, do PSOL.
Apenas em 31 de agosto, depois que Flávio Bolsonaro se reuniu com executivos do mercado financeiro, é que Lula convidou empresários para jantar no Palácio da Alvorada. Dos 16 convidados, apenas cinco (Joesley Batista, da JBS; Rubens Ometto, da Cosan; José Seripieri Júnior, da Amil; André Esteves, do BTG; e Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco) já tinham tido ao menos uma conversa com Lula neste mandato.
— Quando assumiu, o governo adotou o slogan “União e Reconstrução”. O presidente se dedicou muito à reconstrução, mas quase nada à união — resumiu um dos convidados.
O caso mais emblemático desse Lula menos disposto às divergências ocorreu no anúncio do ajuste fiscal em dezembro de 2024. Depois de encomendar ao então ministro Fernando Haddad estudos para controlar os gastos públicos, Lula passou a fustigar cada ideia de contenção. Ao final, aceitou algumas, como o controle do reajuste do salário mínimo, mas impôs que, no mesmo anúncio, Haddad antecipasse o projeto de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco salários mínimos.
O mercado financeiro, que deveria ter sido agradado com o pacote de ajustes, enxergou no anúncio uma medida eleitoreira. O dólar disparou para R$ 6,30, e o Banco Central gastou US$ 20 bilhões em reservas para devolver o câmbio aos patamares de R$ 5,50. Lula nunca reconheceu o erro.
Deve-se principalmente a Lula a decisão do PT de preservar Flávio Bolsonaro de ataques até setembro. O presidente desprezava o filho mais velho de Bolsonaro e achava que, se as denúncias fossem antecipadas, Flávio seria substituído por alguém mais difícil de bater, como o governador Tarcísio de Freitas ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
O cemitério está lotado de obituários sobre a morte política de Lula. Depois de perder a eleição para governador de São Paulo, só foi convencido a não desistir da política pelo líder cubano Fidel Castro, em 1985. Em 1998, depois da terceira derrota presidencial seguida, anunciou ao PT que só voltaria a disputar um cargo se tivesse domínio total da campanha. Em 2018, preso e com o PT se tornando sinônimo de corrupção, ele resistiu à ideia de passar o bastão para um sucessor. No discurso da vitória de 2022, exclamou: “Tentaram me enterrar vivo, mas eu ressuscitei”.
As três semanas depois da derrota no primeiro turno mostraram novamente a capacidade de Lula de ressuscitar. No dia seguinte à derrota, enquanto o PT se engalfinhava em busca de culpados, milhares de estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do Campus do Gragoatá e percorreram ruas de Icaraí e do Centro de Niterói para defender Lula. Dias depois, outros milhares de jovens ocuparam a praça da Candelária, no Rio. O movimento se espalhou pelo país. A esquerda, que desde 2013 estava sumida das ruas, ressurgiu num movimento orgânico, sem partido e unida pela rejeição ao bolsonarismo.
Em Brasília, Lula defenestrou o que ele mesmo definiu como o comando da “campanha mais desorganizada da história”. O senador Camilo Santana (PT-CE) assumiu a coordenação e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, reorganizou a comunicação. O deputado André Janones (Rede-MG) abriu espaço a cotoveladas para criar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que em duas semanas reuniu mais de 10 milhões de membros.
Na sua nona e última campanha eleitoral, Lula mudou com a ameaça de encerrar a carreira com uma derrota. Segundo quem convive com ele, passou a ouvir mais e teimar menos.
— Paramos de falar de legado, do passado do Lula. O importante é garantir um futuro que não seja com um Bolsonaro na Presidência — disse um ex-ministro.
O Lula que ressuscitou no segundo turno é um candidato que foi obrigado a se atualizar rápido. O presidente que tem ojeriza às redes passou a gravar vídeos diários na vertical, em formato de selfie. Até o chapéu que ele insistia em usar, mesmo em entrevistas de estúdio, foi deixado de lado. Conceitos distantes da população como a soberania nacional e o controle da exploração das terras- raras foram substituídos por temas urgentes como a redução da jornada de trabalho e a renegociação de dívidas. Pela primeira vez em quatro anos, Lula reconheceu que seu governo cometeu erros e que a população tem motivos para estar insatisfeita.
Há duas ironias históricas neste segundo turno. A primeira é que o governo mais fechado da história do PT possa ser salvo por dois movimentos de fora para dentro. O modelo do PT das disputas sindicais parou no século 20. Os jovens nas ruas e o choque das redes vai transformar a esquerda, mesmo na eventualidade de uma derrota.
A segunda, consequência da primeira, é que se o presidente for reeleito hoje estará mais atualizado para o governo Lula 4 do que estava para Lula 3. O legado do qual o petista tanto falou na campanha não pode ser um retrovisor. Se ele não indicar para frente, não tem futuro.
Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.