A sociedade reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram

Lembro-me de que, há anos, no Dia de Finados —2 de novembro—, a avenida dr. Arnaldo, aqui na zona oeste de São Paulo, nas imediações do cemitério do Araçá, nas bancas de flores , o trânsito era bem intenso. Essa intensidade arrefeceu. Essa redução da intensida

Por Admin ·

A sociedade reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram

Já não se celebram os mortos . Já não se pensa neles como alguém a quem devemos o mundo e a vida, pelo contrário, muitos discursos atuais falam deles como culpados por tudo de ruim que existe, e que, portanto não merecem qualquer respeito de nossa parte.

Esse é um dos inúmeros exemplos da estupidez arrogante e ruidosa da nossa modernidade. Um exemplo crasso dessa estupidez ruidosa é o fato de que muitos daqueles que praticam esse desprezo nunca passaram por nem um décimo pelo que nossos ancestrais passaram, mas a soberba é o pecado máximo dos modernos.

O culto dos ancestrais, traço presente em muitas religiões tradicionais, às vezes associadas aos povos ditos " primitivos " —a moçadinha politicamente correta condena essa expressão, mas, como toda pessoa que é politicamente correta e, portanto, mentirosa, essa moçadinha nega a expressão, mas acredita nela no fundo do seu coração falso— é um indicativo de respeito e gratidão aos que nos legaram a vida e o mundo. Cultuar esse legado é uma forma de amor à vida e ao mundo.

Aliás, vale lembrar que hoje a palavra " legado " está na moda. Tem até gente de 15 anos mandando a IA escrever um livro sobre o legado desses 15 anos de vida dela. O século 21 é o século mais ridículo da história até aqui, por isso mesmo, condenado à lata de lixo dos livros de história do futuro, a menos que algo de significativo aconteça até o final dele.

A importância dos ancestrais nessas formas de cultos tradicionais não fala só da gratidão que os vivos devem aos mortos. Fala, antes de tudo, da potência deles, justamente porque estão mortos. Essa potência demanda dos seus descendentes vivos atenção, sacrifícios, orações, liturgias, alimentos oferecidos nos locais em que eles descansam, ou seja, nos locais onde estão seus túmulos. Esses locais são, portanto, espaços sagrados de culto. Os antigos praticavam essa forma de culto.

Esses cultos eram formas de gratidão, eram práticas de homenagem e pedidos de ajuda aos ancestrais para que eles ajudassem os seus descendentes vivos a enfrentar os desafios da vida. Mas (e isso é fundamental) caso os espíritos dos ancestrais não recebessem essas honrarias, eles poderiam se transformar em demônios ou espíritos malignos que atormentariam seus descendentes ingratos, causando-lhes sofrimentos e desventuras.