A reconstrução do debate público

O Brasil sai das eleições de 2026 com tarefas urgentes: reconstruir o diálogo público, estabelecer pactos sociais e recuperar um ambiente informacional íntegro, saudável e seguro. Esse movimento passa pela sustentabilidade do jornalismo pro

Por Admin ·

A reconstrução do debate público

O período eleitoral expôs a deterioração do acesso à informação, das liberdades de imprensa e de expressão e do debate político. Projetos e propostas partidárias cederam espaço à espetacularização, seguindo a dinâmica das redes sociais que visa o engajamento acima de tudo. A mobilização dos eleitores no segundo turno, entretanto, mostrou disposição para participar da política e discutir o futuro do país. E talvez seja preciso rever a interpretação da polarização política, reduzida a dois campos irreconciliáveis que podem resultar na morte da democracia .

O resultado do último domingo, por exemplo, revelou um Brasil mais diverso do que a oposição entre "lulismo" e "bolsonarismo" sugere. Direita, liberais, conservadores, democratas de centro, sociais-democratas e correntes de esquerda podem divergir e, ao mesmo tempo, compartilhar o compromisso democrático.

O debate público, porém, continua refém das redes sociais, onde manipulação, desinformação, bolhas informacionais e ataques pessoais têm mais espaço do que fatos e argumentos. Algoritmos e vieses de confirmação estimulam a intolerância e a divisão social.

A verdade factual perde importância diante daquilo em que cada grupo deseja acreditar, e o diálogo é substituído pelo confronto. Os dois últimos debates presidenciais mostraram como a moderação jornalística faz diferença. Na Band, a autonomia concedida aos candidatos resultou em uma rinha de galos, abrindo espaço para a espetacularização dos ataques. Na Globo, a mediação abriu mais espaço às propostas, embora ainda insuficiente. As experiências reforçaram ainda a necessidade da checagem de fatos em tempo real nos debates, que deve permanecer em discussão até as eleições de 2028.

Novamente, a violência contra a imprensa marcou as eleições, mostrando a falta de entendimento sobre o papel do jornalismo. A Coalizão em Defesa do Jornalismo registrou mais de 20 mil ataques digitais entre o primeiro turno e parte do segundo. As mulheres foram as vítimas em 80% dos casos.

Outra ameaça é o assédio judicial. O período eleitoral registrou dezenas de ações que precisam ser examinadas e classificadas para avaliar seus efeitos sobre a liberdade de imprensa, incluindo autocensura.