A experiência do êxtase

Duas constatações dos últimos dias: a) Não dá para aceitar que um belo naco da difusão da comunicação do Brasil esteja na mão de uma empresa privada estrangeira –consertemos isso; b) uma das coisas mais sublimes que alguém pode vivenciar é

Por Admin ·

A experiência do êxtase

A corrida , essa que dá vida a esta coluna, chega no espírito coletivo por vias tortas. É, afinal, uma atividade individual, com a exceção honrosa das provas de revezamento, que, ainda assim, não envolvem exatamente uma galera.

Mas há na corrida um espírito bastante comunitário, como se vê no apoio mútuo entre competidores, e não só dos amadores; ou na torcida, nas ruas, randômica, direcionada para o mais ou para o menos rápido. Mais importante, a motivação para seguir treinando ou mesmo para completar uma prova pode multiplicar quando a gente se junta a um igual.

O treinador Ademir Paulino , que vai com regularidade ao Quênia e à Etiópia, notadamente agora que se tornou representante de uma marca esportiva africana, a Enda , já destacou que uma das razões para o grande número e para a incrível competitividade de corredores desses países é eles treinarem juntos, às centenas, diariamente. Ademir fala que há nisso um não sei quê de pertencimento, que ele chama de "espírito tribal".

Aqui no Brasil, embora o objetivo primordial não tenha sido esportivo, muito menos de aprimoramento de condicionamento físico, as junções de corredores por todo o país em distâncias curtas em apoio a Lula nas últimas semanas foram notáveis.

Sim, essas corridas deveram sua existência a uma causa comum, mas talvez isso tenha sido transcendido. Havia enorme orgulho e alegria por estar junto com tantos que não conhecíamos –e seguiríamos sem conhecer–, e, de quebra, sabermo-nos possuidores de uma ferramenta de deslocamento e autonomia notável: nossos próprios pés.

Abordei numa coluna de há mais de dois anos essa ideia da beleza do coletivo. Não na corrida, mas no remo, quando a gente está com outros remadores num mesmo barco e um movimento dissonante de qualquer um de nós pode fazer com que mal saiamos do lugar.

Lembranças do "oito com" na raia olímpica da USP de década e meia atrás vieram-me à mente depois de assistir a mais uma apresentação da Orquestra Jovem Tom Jobim , uma das pérolas que o ensino gratuito, com dotação pública, lega a São Paulo e ao Brasil. Seus músicos são bolsistas, ganham pouco e têm de deixar a orquestra ao completarem 25 anos. Saem transformados.

Pois bem, a Jovem Tom Jobim, cujos regentes principais, Nelson Ayres e Tiago Costa, junto com arranjadores convidados, recriam lindamente temas exclusivamente brasileiros, concorre ao Grammy Latino deste ano na categoria melhor álbum de música clássica .

Os cria enfrentam tigrões: as filarmônicas de Londres e de Los Angeles, a Sinfônica de Londres e ainda a Orquestra Simón Bolívar, da Venezuela, corolário do gigantesco e lindo projeto de formação de músicos eruditos do "El Sistema" venezuelano.

Ganhando ou não, a indicação já é um feito gigante para a Tom. Os próximos concertos são em dezembro, no Theatro São Pedro, quando os meninos irão recriar choros de Pixinguinha, Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, Tia Amélia e outros tantos. Recomendo.