No dia seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais, uma conversa em casa me fez refletir sobre os efeitos da polarização política na infância. Minha filha, de 8 anos, contou que os colegas discutiam sobre os candidatos, reproduzindo críticas e provocações. Quando perguntei como se sentia, respondeu que ficava incomodada com a hostilidade daquelas conversas.
Ao compartilhar o episódio, ouvi relatos semelhantes de outras mães. Crianças constrangidas pelas preferências políticas dos pais, discussões entre colegas e até um menino de 6 anos que, depois de ouvir adultos questionarem a legitimidade de um resultado eleitoral, passou a atribuir uma derrota no futebol à suposta desonestidade do juiz.
A formação das identidades políticas começa muito antes do exercício do voto. Esse processo, conhecido como socialização política, envolve os valores transmitidos pela família, as experiências escolares, as interações sociais e, cada vez mais, o ambiente digital.
O problema, portanto, não está em conversar sobre política com os filhos. Compreender o funcionamento das instituições, reconhecer direitos e desenvolver interesse pela vida pública são componentes importantes da formação cidadã. A questão é quando a transmissão de convicções se confunde com a reprodução de antagonismos.
A chamada polarização afetiva ajuda a explicar esse processo. Quando a identificação política passa a envolver sentimentos de rejeição e hostilidade em relação ao outro grupo, o adversário deixa de ser percebido como alguém que defende um projeto diferente de sociedade e passa a ser tratado como uma ameaça moral. Nas relações infantis, essa lógica pode se traduzir em provocações, constrangimentos e exclusão.
Isso não significa que todas as posições políticas sejam equivalentes ou que a democracia exija neutralidade diante de discursos discriminatórios, ataques às instituições ou ameaças aos direitos fundamentais. O pluralismo democrático depende de princípios compartilhados que garantam a convivência entre diferentes. É justamente por isso que precisamos distinguir o enfrentamento legítimo de ideias da desqualificação indiscriminada de pessoas.
A escola tem um papel importante nesse processo, mas a responsabilidade não pode ser transferida exclusivamente a ela. As crianças observam nossas reações, escutam nossas conversas e aprendem com a maneira como lidamos com a discordância, a frustração e a derrota.
Ao final daquela conversa, fiquei pensando na responsabilidade que temos sobre a maneira como nossos filhos aprendem a interpretar o mundo. Não espero que minha filha cresça sem convicções ou que concorde com todas as pessoas. Quero que tenha argumentos para defender aquilo em que acredita, autonomia para questionar o que escuta e discernimento para reconhecer a diferença entre uma divergência legítima e um discurso que viola direitos.
Precisamos olhar para o exemplo que oferecemos às crianças. Muito antes de aprenderem a votar, elas aprendem conosco a lidar com as diferenças e a respeitar quem pensa diferente.
A democracia começa em casa; a polarização também
Quando as disputas políticas dos adultos chegam às relações infantis , o que está em jogo vai além das preferências eleitorais: é a própria formação de uma cultura democrática .