A democracia brasileira em novos tempos?

Mundo afora, a democracia é um sistema político que sempre funcionou bem enquanto o debate público foi regulado com a participação limitada a líderes partidários, políticos, jornalistas, intelectuais, sindicalistas etc, o que permitia a agr

Por Admin ·

A democracia brasileira em novos tempos?

O surgimento das redes sociais desafiou esse alicerce tradicional da democracia e permitiu que vozes antes com espaço bastante limitado no debate público pudessem ecoar. No passado, os partidos ofereciam o menu de propostas e candidatos; agora, as redes abriram espaço para novos grupos, cuja participação ainda é desorganizada e, muitas vezes, sem objetivos claros. Em alguns casos, eles se limitam apenas à destruição das instituições que fracassaram em incluí-los.

Como se adaptar a esse novo cenário foi o desafio das lideranças políticas que sustentaram a democracia brasileira desde 1985 e, sem conseguir se atualizar às novas formas de fazer campanha, aparentemente envelheceram. Assim, a vitória do presidente Lula pode ser explicada menos pelas lideranças tradicionais e mais pela intensa mobilização popular da última semana de campanha, só comparável à das Diretas Já, fundamental para a democratização do país há mais de 40 anos.

A mobilização iniciada pelo movimento estudantil rejuvenesceu a campanha. André Janones (Rede-MG), outra liderança nova, comandou seu "exército" digital, consagrando as redes como recurso eleitoral relevante. O desafio agora é manter essa mobilização e adaptar a linguagem das redes –ainda simplória e virulenta– à proposição de políticas públicas. De qualquer forma, abriu-se uma janela para o uso delas a favor do campo democrático.

Também existem dilemas para o campo perdedor, que representa a outra metade do país. O primeiro é transformar o poder adquirido nas eleições para o Legislativo em algo menos rancoroso e mais propositivo. O segundo, relacionado ao primeiro, será substituir a liderança da família Bolsonaro em prol de uma ainda incipiente proposta de organização do campo conservador em moldes mais democráticos, algo inovador na história política do país.

Em suma, o resultado das eleições foi fruto sobretudo de um trabalho corpo a corpo, de quem saiu à busca de votos para defender a sua democracia. Oxalá as futuras disputas eleitorais possam ocorrer em ambiente mais construtivo, retomando o padrão clássico democrático em que a alternância de poder é vista como algo natural.

Este artigo encerra a coluna "Voto a Voto " nestas eleições, em que pesquisadores do FGV-CEPESP trouxeram diferentes abordagens analíticas sobre a política brasileira.