Vivemos tempos em que as inteligências artificiais têm feito as vezes de assistentes pessoais, terapeutas , amigos e até parceiros amorosos. Com um ou dois prompts, recebemos respostas elaboradas criadas especialmente para nós. Ou pelo menos é essa a impressão que temos —a de que, com essas tecnologias, somos quase autossuficientes. E é justamente nessa sensação que mora o perigo, porque o sentimento de que tudo parece intuitivo e fácil de realizar não veio acompanhado de letramento digital e midiático para compreender minimamente o contexto em que estamos imersos.
Isso é válido inclusive para crianças e adolescentes, a quem chamamos de nativos digitais, causando a falsa impressão de que eles nasceram sabendo navegar com segurança nos ambientes digitais. Não é verdade: eles precisam de orientação e apoio para desenvolverem habilidades e competências para isso. É por esse motivo que a figura do professor segue sendo central nesse cenário.
Enquanto as IAs fornecem respostas supostamente prontas , o professor atua no campo do sentido, da ética e da humanização. O educador lê o contexto emocional de um aluno, percebe quando há desânimo ou dificuldade para além dos números, e constrói um ambiente seguro onde o erro é parte fundamental do aprendizado —algo que os algoritmos não fazem genuinamente.
É válido dizer também que os educadores assumem, nesse contexto, o papel de mediadores e curadores críticos , ensinando a duvidar de certas informações, a verificar fontes e a transformar dados em conhecimento ético e aplicável. Ou seja: a inteligência artificial pode oferecer as ferramentas, mas é o olhar pedagógico que garante que os estudantes desenvolvam autonomia intelectual, pensamento crítico e discernimento moral.
No entanto, quem forma também precisa de formação. A maioria dos professores que estão em sala de aula hoje não foram preparados para lidar com esse turbilhão de informações (e desinformações) em circulação. Também não foram formados para manusear a infinidade de ferramentas tecnológicas disponíveis.
Nesse sentido, a formação continuada se torna fundamental, garantindo que os educadores tenham acesso a cursos, atualizações e recursos alinhados com as diretrizes curriculares nacionais, como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), e as normativas do CNE (Conselho Nacional de Educação).
O quadro, porém, é complexo. Dados da última edição da pesquisa TIC Educação mostraram que 92% dos docentes buscam referências sozinhos e que somente 54% tiveram alguma formação sobre tecnologias digitais da informação e comunicação (TDICs). Iniciativas de desenvolvimento profissional são, portanto, urgentes e merecem mais atenção das secretarias municipais e estaduais de educação. Espaços de diálogo, escuta e construção coletiva com as equipes pedagógicas são igualmente necessários.
É fato que as mudanças tecnológicas avançam em uma velocidade que não conseguimos acompanhar. Ainda que o tempo da educação não seja o mesmo dessas tecnologias, precisamos reforçar a importância dos professores, dando a eles condições de trabalho para que possam preparar as novas gerações para desafios ainda mais complexos que já estão em curso.